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Marlim-azul

Makaira nigricans

O gladiador dos oceanos pode pesar uma tonelada, saltar três metros fora de água — e ninguém sabe exatamente onde dorme.

Marlim-azul (Makaira nigricans)

FICHA DE IDENTIDADE

ClassificaçãoOrdem dos Istiophoriformes, família dos Istiophoridae
Nome científicoMakaira nigricans (Lacépède, 1802) — Atlântico · Makaira mazara (Jordan & Snyder, 1901) — Indo-Pacífico
TamanhoFêmeas: até 5 m · Machos: 2,5-3,5 m
PesoFêmeas: até 900 kg (recorde IGFA: 636 kg) · Machos: 100-180 kg
Velocidade80-100 km/h em sprint
LongevidadeFêmeas: 20-27 anos · Machos: 15-18 anos
ProfundidadeSuperfície a 1 000 m, caça principalmente entre 0 e 200 m
DietaCarnívoro — atuns, bonitos, cavalas, lulas, douradas
Estatuto UICNVulnerável (VU)

RETRATO

O marlim-azul é o maior dos istioforídeos e um dos maiores peixes ósseos do planeta. Uma fêmea adulta pode ultrapassar 5 metros da ponta do rostro à bifurcação da caudal e aproximar-se da tonelada — um gabarito que só encontra equivalente, entre os teleósteos, no peixe-lua. O dimorfismo sexual é espetacular: os machos raramente ultrapassam 180 kg. Nos marlins, são as fêmeas que dominam.

O animal é construído para a velocidade e a potência. O corpo é maciço mas hidrodinâmico, comprimido lateralmente, com uma barbatana caudal em crescente rígido — um design convergente com o dos atuns e dos tubarões-mako, que partilham o mesmo imperativo: percorrer milhares de quilómetros em água aberta. O rostro, longo e robusto, redondo em secção, serve de arma de caça e de leme hidrodinâmico. A barbatana dorsal, mais baixa do que a do peixe-vela, mas de um azul cobalto intenso, recolhe-se numa goteira durante os sprints.

Para o mergulhador, o marlim-azul é um graal. Não frequenta os recifes nem as costas — é um animal de plena água, altamente migratório, que cobre bacias oceânicas inteiras. Os encontros subaquáticos documentados contam-se pelos dedos de uma mão. É um animal que se cruza na pesca desportiva, a partir de um barco, ou — com uma dose de sorte extraordinária — em snorkeling sobre um bait ball.

COMO RECONHECÊ-LO

O marlim-azul é identificável só pelo seu tamanho — nenhum outro istioforídeo se aproxima da tonelada. O corpo é azul cobalto no dorso, prateado nos flancos, com uma quinzena de barras verticais azul-pálido visíveis sobretudo quando o animal está excitado ou stressado. A barbatana dorsal é pontiaguda e nitidamente mais baixa do que a do peixe-vela (não atinge metade da altura do corpo). O rostro é longo, redondo em secção (ao contrário do espadarte, cujo rostro é achatado como uma lâmina).

A distinção com o marlim-branco (Kajikia albida) assenta no tamanho (o branco raramente ultrapassa 80 kg), na forma das barbatanas peitorais (rígidas no azul, dobráveis no branco) e na linha lateral (complexa e reticulada no azul, simples no branco). O marlim-riscado (Kajikia audax), indo-pacífico, é mais pequeno e apresenta riscas verticais mais marcadas.

Em movimento, o marlim-azul é reconhecível pela sua andadura: barbatana dorsal recolhida, corpo rígido, propulsão por curtos batimentos da caudal em crescente — um movimento de turbina, sem ondulação. Os saltos fora de água (tailwalking), espetaculares, são mais frequentemente observados quando o animal está preso a um anzol, mas ocorrem também durante a caça.

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MODO DE VIDA

O marlim-azul é um predador solitário de plena água. Percorre milhares de quilómetros por ano, seguindo as correntes quentes e as concentrações de presas através de bacias oceânicas inteiras. Indivíduos marcados nas Caraíbas foram recapturados ao largo dos Açores, da Madeira e da África Ocidental — migrações transatlânticas de mais de 6 000 km.

A caça faz-se à superfície e nos primeiros 200 metros da coluna de água. O marlim deteta um cardume de atuns ou de bonitos, acelera a 80-100 km/h e atravessa o cardume golpeando lateralmente com o rostro — uma técnica idêntica à do peixe-vela, mas a uma escala bem superior. As presas atordoadas ou feridas são depois engolidas lentamente. Estudos de telemetria demonstraram que o marlim-azul mergulha regularmente a 500-800 m, provavelmente para caçar lulas de profundidade, com recordes que ultrapassam os 1 000 m.

O marlim-azul possui um sistema de aquecimento cerebral único entre os peixes ósseos. Uma rede de vasos sanguíneos em contracorrente (rete mirabile) mantém o seu cérebro e os seus olhos 10 a 15 °C acima da temperatura ambiente — uma vantagem decisiva para processar a informação visual a grande velocidade nas águas frias das profundezas.

A reprodução é mal conhecida. As fêmeas libertam até 7 milhões de ovos pelágicos por desova. O crescimento é extraordinariamente rápido: um marlim pode atingir 45 kg num ano. A maturidade sexual é atingida aos 2-4 anos nos machos, 3-5 anos nas fêmeas.

ONDE OBSERVÁ-LO

O marlim-azul é um animal pelágico — os encontros subaquáticos são excecionais e nunca garantidos. A observação faz-se principalmente a partir de barcos de pesca desportiva que praticam catch and release.

Açores — Portugal. O arquipélago dos Açores é o ponto alto europeu do marlim-azul. De junho a outubro, as águas profundas em torno de Faial, Pico e São Miguel atraem os maiores espécimes do Atlântico. A pesca desportiva em catch and release é uma tradição bem estabelecida, com clubes e torneios anuais.

Cabo Verde. As águas quentes e profundas do arquipélago cabo-verdiano abrigam uma população residente. A época vai de março a junho. Cabo Verde é considerado o melhor destino do mundo para marlins-azuis de grande porte (400+ kg).

Kona — Havai. A costa oeste de Big Island (a Kona Coast) é o berço histórico da pesca ao grande no Pacífico. Marlins-azuis do Pacífico (M. mazara) são observados durante todo o ano, com um pico entre julho e outubro. O torneio anual Hawaiian International Billfish Tournament é um dos mais antigos do mundo (desde 1959).

Cancún / Isla Mujeres — México. As mesmas águas que atraem os peixes-vela no inverno veem passar marlins-azuis durante a estação quente. Os encontros em snorkeling são teoricamente possíveis nos bait balls, mas extremamente raros.

CairnsAustrália. As águas ao largo da Grande Barreira de Coral, entre Cairns e Lizard Island, são um dos locais mais fiáveis do mundo para o marlim-negro (Istiompax indica), primo próximo do marlim-azul, entre setembro e dezembro.

CALENDÁRIO DE OBSERVAÇÕES

DestinoJFMAMJJASOND
Açores (Portugal)
Cabo Verde
Kona (Havai)
Cancún (México)
Cairns (Austrália)

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CONSERVAÇÃO

Makaira nigricans está classificado como Vulnerável (VU) na Lista Vermelha da UICN. As populações atlânticas declinaram mais de 60 % desde os anos 1960. O marlim-azul do Pacífico (M. mazara), por vezes considerado como espécie distinta, conhece um declínio semelhante mas menos documentado.

A pesca é a ameaça quase exclusiva. O marlim-azul é capturado pela palangre industrial dirigida ao atum e ao espadarte — representa uma captura acessória (bycatch) maciça nas pescarias atuneiras do Atlântico, do oceano Índico e do Pacífico. A pesca desportiva, embora pratique cada vez mais o catch and release, contribui historicamente para o declínio. A mortalidade pós-libertação varia de 5 a 35 % segundo os estudos, em função da duração do combate, da temperatura da água e da técnica de devolução.

A ICCAT (Comissão Internacional para a Conservação dos Tunídeos do Atlântico) gere as quotas de marlim-azul no Atlântico. As quotas foram reduzidas em 75 % desde 2000, mas a aplicação permanece desigual.

Organizações a apoiar:

3 COISAS QUE PROVAVELMENTE NÃO SABE

1. O seu cérebro funciona a quente — como o de um mamífero. O marlim-azul possui uma rede admirável (rete mirabile) — um permutador de calor vascular que mantém o seu cérebro e os seus olhos 10 a 15 °C acima da temperatura da água circundante. Este sistema, convergente com o dos atuns e dos tubarões lamnídeos, permite-lhe conservar uma acuidade visual e uma velocidade de reação máximas quando mergulha nas águas frias a 800 m de profundidade para caçar lulas.

2. Uma fêmea pode pôr 7 milhões de ovos numa única época. É uma das fecundidades mais elevadas de todos os peixes ósseos. Os ovos, minúsculos (1 mm) e transparentes, derivam no plâncton durante 2-3 dias antes de eclodir. A mortalidade larvar é astronómica — de 7 milhões de ovos, menos de uma dezena atingirá a idade adulta. Esta estratégia de reprodução dita «em r» (quantidade extrema, investimento parental nulo) torna a espécie vulnerável à sobrepesca dos adultos: cada reprodutor perdido representa milhões de ovos a menos.

3. O recorde mundial vigora desde 1982 — e provavelmente nunca será batido. O maior marlim-azul jamais pesado oficialmente (636 kg, capturado ao largo de Kona, Havai, por Jay de Beaubien a 31 de maio de 1982) continua a ser o recorde IGFA da categoria. Não porque os marlins fossem maiores nos anos 1980, mas porque os peixes deste porte se tornaram extremamente raros. A diminuição do tamanho médio das capturas em todas as pescarias mundiais é o indicador mais visível do declínio da espécie.

DICAS DE FOTO E VÍDEO

O marlim-azul é um tema quase inacessível para o fotógrafo subaquático — os encontros em plena água contam-se às dezenas na história do mergulho. A quase totalidade das imagens existentes são captadas a partir de barcos ou por snorkelers em bait balls.

A partir do barco. Teleobjetiva 70-200 mm ou 100-400 mm. Os saltos (tailwalking) do marlim no anzol são o momento forte — rajada a 1/2000 s no mínimo, AF contínuo. A imagem assinatura é o marlim no ar, corpo tenso, água a jorrar em torno da caudal, com o oceano azul em plano de fundo. A luz tropical é ideal; o desafio é a distância e a velocidade da ação.

Em snorkeling (excecional). Grande angular ou fisheye. Os raros encontros documentados em snorkeling (principalmente em Isla Mujeres, à margem das caçadas de peixes-vela) mostram um animal que passa a 3-5 metros a toda a velocidade. Não há enquadramento possível — apontar e disparar em rajada. A sorte é o único fator.

Vídeo. A câmara lenta (slow motion) é o instrumento narrativo por excelência. As sequências mais marcantes de marlim em caça foram filmadas a 240 ou 1 000 imagens/segundo, revelando o detalhe do golpe do rostro sobre o cardume de presas — um movimento invisível a olho nu. As câmaras de ação (GoPro) em modo lento são um compromisso acessível.

Ética. Na pesca desportiva em catch and release, a prioridade absoluta é a devolução rápida do animal à água. A fotografia nunca justifica um prolongamento do tempo fora de água. Evitar retirar o peixe da água para a foto — mantê-lo junto ao barco, focinho na corrente, enquanto as brânquias recuperam.

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