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Polvo-de-anéis-azuis

Hapalochlaena

Cabe na palma de uma mão, pesa menos do que uma bola de golfe — e carrega veneno suficiente para matar vinte e seis humanos adultos em poucos minutos.

Polvo-de-anéis-azuis (Hapalochlaena)

FICHA DE IDENTIDADE

ClassificaçãoOrdem dos Octópodes, família dos Octopodídeos
Nome científicoGénero Hapalochlaena (Robson, 1929) — 4 espécies reconhecidas
Tamanho12 a 20 cm de envergadura dos braços (manto: 4 a 6 cm)
Peso10 a 100 g conforme a espécie
Longevidade1 a 2 anos — como a maioria dos pequenos cefalópodes, morre após a primeira reprodução
ProfundidadeZona intertidal até 50 m, mais frequentemente entre 0 e 20 m
DietaPredador — pequenos caranguejos, camarões, gastrópodes, por vezes pequenos peixes, imobilizados por uma mordedura venenosa
Estatuto UICNPreocupação menor (LC) para as espécies avaliadas

RETRATO

Há animais subaquáticos que se procuram porque são grandes. O polvo-de-anéis-azuis procura-se justamente porque é minúsculo — e porque a sua reputação o precede. Hapalochlaena é um dos animais mais venenosos do planeta, todas as categorias incluídas. Um único indivíduo do tamanho de uma bola de golfe transporta tetrodotoxina (TTX) suficiente para matar vinte e seis humanos adultos. Não existe antídoto.

A tetrodotoxina é a mesma neurotoxina do baiacu — 1 200 vezes mais potente do que o cianeto. Produzida por bactérias simbióticas do género Vibrio alojadas nas glândulas salivares do animal, bloqueia os canais de sódio das células nervosas e provoca uma paralisia muscular progressiva. A vítima permanece consciente mas não consegue mexer-se nem respirar. Sem ventilação artificial imediata, o desfecho é fatal em poucos minutos.

E contudo, o polvo-de-anéis-azuis não é agressivo. Foge do contacto humano, esconde-se em conchas vazias e nas fendas do recife, e só morde se for agarrado ou esmagado por descuido. Os acidentes graves — um punhado por década — ocorrem quase sempre nas poças de maré, quando um banhista apanha uma concha ocupada sem o saber. Em mergulho, o risco é praticamente nulo para quem observa sem tocar.

COMO RECONHECÊ-LO

Em repouso, o polvo-de-anéis-azuis é quase invisível. A sua pele tende para o bege, o castanho ou o amarelo-baço, pontuada de motivos discretos que o fundem no substrato — areia, detritos de coral, conchas vazias. Nada o distingue das dezenas de outros pequenos polvos do recife.

Tudo muda quando se sente ameaçado. Numa fração de segundo, 50 a 60 anéis iridescentes aparecem por todo o corpo e braços, passando do baço a um azul-elétrico intenso. Não se trata de uma coloração pigmentar mas de um mecanismo de cromatóforos e de iridóforos: células sob a pele que refletem a luz de forma a produzir um azul metálico visível mesmo em fraca luminosidade. O sinal é unívoco — é aposematismo puro: não me toques.

As quatro espécies do género são difíceis de distinguir entre si sem análise genética. A mais difundida, Hapalochlaena maculosa, apresenta anéis relativamente grandes e bem definidos. H. lunulata, a mais frequentemente fotografada, exibe anéis mais pequenos e mais numerosos. H. fasciata e H. nierstraszi, descritas mais recentemente, permanecem mal conhecidas.

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MODO DE VIDA

O polvo-de-anéis-azuis é um caçador crepuscular e noturno. Passa o dia escondido num buraco de coral, numa concha vazia ou debaixo de uma rocha, e sai ao cair da noite para caçar. A sua técnica é de uma eficácia temível: aproxima-se de um pequeno caranguejo ou de um camarão, agarra-o com os braços e inflige-lhe uma mordedura precisa com o seu bico córneo. A saliva carregada de TTX paralisa a presa em poucos segundos. O animal pode então comer tranquilamente, abrigado na sua toca.

O ciclo de vida é breve. Como a maioria dos octópodes, Hapalochlaena é semélparo: reproduz-se uma única vez e depois morre. A fêmea põe cerca de cinquenta ovos que incuba sob os braços durante aproximadamente dois meses, deixando de se alimentar durante toda a incubação. Os jovens eclodem sob a forma de paralarvas planctónicas, derivam algumas semanas na corrente e depois pousam no fundo para iniciar a sua vida bêntica. A mãe, esgotada, morre pouco após a eclosão.

O habitat de predileção é o labirinto de conchas vazias, detritos coralinos e cascalho rochoso a que os mergulhadores chamam muck — esses fundos de aparência insignificante onde prolifera uma vida microscópica de uma densidade inaudita. As poças de maré rochosas são o outro terreno de caça, particularmente na Austrália, onde os encontros fora de água são os mais frequentes.

ONDE OBSERVÁ-LO

O polvo-de-anéis-azuis é endémico do Indo-Pacífico, do sul do Japão à Austrália, da Indonésia às Filipinas. É um animal discreto, pequeno e noturno — cada observação é um acontecimento.

Austrália — Grande Barreira de Coral e poças de maré de Sydney. A Austrália é o coração da área de repartição do género. Hapalochlaena maculosa, a espécie-tipo, habita as costas sul e leste, incluindo as poças de maré da região de Sydney e de Melbourne — é aliás aí que ocorre a maioria dos acidentes. Na Grande Barreira de Coral, os encontros subaquáticos são raros mas documentados, frequentemente nos platôs coralinos pouco profundos.

IndonésiaLembeh e Bali. O estreito de Lembeh (Sulawesi do Norte) é a Meca mundial do muck diving — e um dos locais onde a probabilidade de cruzar um polvo-de-anéis-azuis é mais elevada. Os guias locais conhecem os pontos de repouso diurnos e localizam o animal com uma regularidade que espanta os visitantes. Em Bali, os locais de macro como Seraya e Tulamben oferecem observações comparáveis, sobretudo em mergulho noturno.

FilipinasAnilao. A baía de Anilao (Batangas), a sul de Manila, é a outra capital mundial do macro. Os fundos de detritos vulcânicos e areia negra albergam uma população de Hapalochlaena lunulata que os guias encontram regularmente, de dia como de noite.

Japão — Península de Izu. As águas temperadas quentes da península de Izu, a duas horas de Tóquio, marcam o limite norte da área de repartição. Os mergulhadores japoneses, cuja paciência e precisão de observação são lendárias, fotografam regularmente H. lunulata nas florestas de algas e nos fundos rochosos pouco profundos.

CALENDÁRIO DE OBSERVAÇÕES

DestinoJFMAMJJASOND
Austrália (Sydney, costas sul)
Austrália (Grande Barreira)
Indonésia (Lembeh)
Indonésia (Bali)
Filipinas (Anilao)
Japão (Izu)

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CONSERVAÇÃO

Os polvos-de-anéis-azuis não estão ameaçados. As espécies avaliadas pela UICN estão classificadas como Preocupação menor (LC). O seu ciclo de vida curto, a sua fecundidade razoável e o seu habitat costeiro — recifes de coral, zonas intertidais, fundos de detritos — tornam-nos dependentes da saúde geral dos ecossistemas costeiros, mas nenhuma pressão específica pesa sobre o género.

As ameaças indiretas são contudo reais. A destruição dos habitats costeiros — urbanização, poluição, sedimentação — reduz as zonas de caça e de postura. O aquecimento das águas poderá modificar a área de repartição: espécimes foram observados nos últimos anos em zonas onde o género era desconhecido, como as costas do sul da Índia. Por fim, o comércio de aquários exóticos retira ocasionalmente indivíduos da natureza, uma prática perigosa tanto para o detentor como para a espécie.

O mergulhador responsável nunca toca num polvo-de-anéis-azuis, não o desloca para o fotografar e não ilumina um indivíduo em repouso mais do que alguns segundos. Estes animais são minúsculos, frágeis e ficam stressados com o menor contacto.

Organizações a acompanhar:

3 COISAS QUE PROVAVELMENTE NÃO SABE

1. O seu veneno é fabricado por bactérias, não por ele. A tetrodotoxina não é sintetizada pelo polvo. É produzida por colónias de bactérias simbióticas dos géneros Vibrio e Pseudoalteromonas, alojadas nas suas glândulas salivares. Sem estas bactérias, o animal seria tão inofensivo como qualquer outro pequeno polvo. O mesmo mecanismo existe no baiacu, em certas salamandras e em algumas rãs tropicais — a TTX é um veneno universal, não uma invenção própria de um grupo.

2. A sua mordedura é indolor — e é isso que a torna perigosa. O bico do polvo-de-anéis-azuis é minúsculo e a sua mordedura é tão ligeira que a maioria das vítimas não a sente. Os primeiros sintomas — dormência dos lábios, fraqueza muscular, dificuldade em respirar — surgem 5 a 25 minutos mais tarde. Nessa altura, a vítima está frequentemente longe de qualquer socorro. É por isso que os acidentes, embora muito raros (dois a três óbitos documentados na história), são tão graves: ninguém sabe que foi mordido.

3. Os anéis não são azuis em repouso — tornam-se azuis. A cor azul não é permanente. Em repouso e em confiança, o animal é castanho-bege, quase invisível. Os anéis aparecem em menos de um terço de segundo, por contração dos músculos que rodeiam células refletoras (iridóforos) situadas sob a pele. O flash azul é um aviso de último recurso — o equivalente animal de um sinal de perigo. Se se veem os anéis, é porque o polvo considera que está em perigo iminente.

DICAS DE FOTO E VÍDEO

O polvo-de-anéis-azuis é o Graal da macrofotografia subaquática. A sua raridade, o seu pequeno tamanho e o espetáculo cromático dos seus anéis fazem dele um tema cobiçado por todos os fotógrafos de muck.

Objetiva. Macro imperativa: 60 mm ou 100 mm em corpo reflex/híbrido, ou lente macro húmida em compacta. O tema raramente ultrapassa 6 cm de manto — uma grande angular seria inútil. Um dioptre adicional permite preencher o enquadramento com o animal inteiro e os seus anéis.

Luz. Flash ou farol de fraca potência, orientado para evitar os reflexos nos iridóforos. Os anéis azuis produzem naturalmente um brilho metálico que pode saturar um sensor se a luz for frontal e demasiado forte. Uma iluminação lateral, a 45 graus do tema, faz sobressair os anéis preservando o detalhe da pele.

Aproximação. Lenta, baixa, sem gestos bruscos. Se os anéis azuis aparecem, é porque o animal se sente ameaçado — recuar imediatamente e esperar que volte à calma. As melhores imagens mostram o animal em repouso ou em caça, anéis discretos, no seu ambiente natural — não um retrato de stress cromático.

Erro clássico. Querer a todo o custo provocar o flash azul dos anéis. Alguns mergulhadores empurram ou tocam o animal para provocar a reação. É ao mesmo tempo perigoso (risco de mordedura) e contrário a toda a ética fotográfica. Os anéis em repouso, apenas visíveis, dão imagens mais raras e mais honestas do que o retrato de ameaça — e provam um domínio muito superior do tema.

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