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Caranguejo-ferradura

Limulus polyphemus

Atravessou cinco extinções em massa. O seu sangue azul salva milhões de vidas humanas todos os anos.

Caranguejo-ferradura (Limulus polyphemus)

FICHA DE IDENTIDADE

ClassificaçãoOrdem dos Xifossuridos, família dos Limulidae — mais próximo das aranhas e dos escorpiões do que dos caranguejos
Nome científicoLimulus polyphemus (Linnaeus, 1758)
TamanhoAté 60 cm (carapaça), 80 cm incluindo a cauda; a fêmea é um terço maior do que o macho
Peso2 a 5 kg (fêmea adulta)
Longevidade20 a 40 anos
ProfundidadeDa zona intertidal até 30 m, por vezes até 200 m
DietaDetritívoro e predador bentónico — vermes poliquetas, moluscos, pequenos crustáceos, algas
Estatuto UICNVulnerável (VU) — população em declínio

RETRATO

Não é bonito nem gracioso, mas impõe respeito como poucos animais vivos. O caranguejo-ferradura é um fóssil vivo no sentido mais literal do termo: o seu plano corporal praticamente não mudou há 450 milhões de anos. Percorria os fundos marinhos 200 milhões de anos antes dos primeiros dinossauros, e sobreviveu-lhes — assim como a quatro outras extinções em massa.

Apesar do seu nome inglês (horseshoe crab), o caranguejo-ferradura não é um caranguejo. Nem sequer é um crustáceo. A análise da sua anatomia e do seu ADN coloca-o entre os quelicerados — o grupo que compreende as aranhas, os escorpiões e os ácaros. Em termos de parentesco, está mais próximo da aranha da sua casa de banho do que do caranguejo no seu prato.

O animal desloca-se lentamente pelo fundo, lavrando o sedimento com as patas para desenterrar vermes e bivalves. Pode-se cruzar com ele em mergulho sobre os fundos arenosos e lamosos da costa atlântica americana, e — no caso das espécies asiáticas — nos mangais e nos estuários do Sudeste Asiático e do Japão.

COMO RECONHECÊ-LO

O caranguejo-ferradura não se confunde com nada. Visto de cima, é um escudo em forma de ferradura — daí o seu nome — prolongado por um télson rígido, uma longa ponta caudal que não é um dardo nem uma arma, mas um simples leme que o animal utiliza para se virar quando se encontra de dorso.

O corpo divide-se em duas partes articuladas: o prossoma (a grande carapaça anterior, lisa e abaulada) e o opistossoma (a parte posterior, orlada de espinhos móveis). Sob o prossoma escondem-se seis pares de patas articuladas, das quais as quatro centrais possuem pequenas pinças. Sob o opistossoma, cinco pares de brânquias em livro — folhetos empilhados como as páginas de um livro — asseguram a respiração. Encontra-se este mesmo dispositivo nos escorpiões terrestres, sob a forma de pulmões em livro.

A sua cor varia do castanho-oliváceo ao castanho-escuro. Debaixo de água, um mergulhador nota-o geralmente quando se desloca pelo fundo arenoso, levantando uma pequena nuvem de sedimento, ou quando a sua carapaça brilhante capta a luz de uma lanterna.

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MODO DE VIDA

O caranguejo-ferradura passa a maior parte da vida sobre os fundos moles da plataforma continental, entre 5 e 30 metros de profundidade. Alimenta-se de noite, lavrando o sedimento à procura de vermes, pequenos bivalves e detritos orgânicos. O animal tritura a comida não com mandíbulas — não as possui — mas com a base espinhosa das patas, um dispositivo chamado gnatobase.

O espetáculo mais extraordinário ocorre uma vez por ano, entre maio e junho, nas praias da costa atlântica norte-americana. Durante as marés vivas de lua cheia e lua nova, centenas de milhares de caranguejos-ferradura sobem à areia para desovar. As fêmeas, maiores, escavam ninhos pouco profundos e aí depositam cachos de 3 000 a 4 000 ovos esverdeados. Os machos, agarrados ao dorso das fêmeas por patas em gancho, fecundam os ovos à medida que são libertados. Cada fêmea pode pôr até 80 000 ovos por época.

Esta desova em massa é um elo crítico do ecossistema. Os ovos de caranguejo-ferradura constituem a principal fonte de energia dos seixoeiras-de-papo-vermelho e de outras aves limícolas migratórias que fazem escala nas praias do Delaware a caminho do Ártico. Sem os caranguejos-ferradura, estas aves não conseguem reconstituir as suas reservas de gordura — e a sua migração fracassa.

ONDE OBSERVÁ-LO

Quatro espécies de caranguejos-ferradura existem no mundo. Limulus polyphemus vive na costa atlântica americana. Três espécies asiáticas dos géneros Tachypleus e Carcinoscorpius frequentam as águas do Sudeste Asiático e do Japão. Eis os melhores destinos para os observar:

Delaware Bay, EUA — a maior desova do mundo. Todos os anos em maio e junho, as praias da baía do Delaware (entre o New Jersey e o Delaware) acolhem a maior concentração de caranguejos-ferradura do planeta. Durante as marés de lua cheia, centenas de milhares de indivíduos amontoam-se na areia num espetáculo pré-histórico. A observação faz-se a partir da praia ou em água muito pouco profunda — não são precisas garrafas. Os locais de Slaughter Beach, Pickering Beach e Kitts Hummock são os mais acessíveis. As aves limícolas migratórias são um bónus espetacular.

Flórida, EUA. Os fundos arenosos e os estuários da costa atlântica da Flórida, nomeadamente na região da Indian River Lagoon e em torno do cabo Canaveral, albergam caranguejos-ferradura durante todo o ano. Os mergulhadores cruzam-se regularmente com eles sobre os fundos de areia, sozinhos ou em casal (o macho agarrado à fêmea). A desova ocorre de março a junho, mais cedo do que no Delaware graças às águas mais quentes.

Sudeste Asiático — as espécies de mangal. Os caranguejos-ferradura asiáticos (Tachypleus gigas e Tachypleus tridentatus, mais Carcinoscorpius rotundicauda) frequentam os estuários, as vasas e os mangais da Malásia, da Tailândia, do Vietname, das Filipinas e da Indonésia. Observam-se em snorkeling nos canais de mangal em maré baixa, ou sobre os fundos lamosos pouco profundos. A ilha de Balambangan (Sabah, Malásia) e a costa leste da península malaia são locais conhecidos.

Japão — Kitakyushu. O caranguejo-ferradura-tridente (Tachypleus tridentatus) é protegido e venerado no Japão, onde está classificado como monumento natural. O Museu dos Caranguejos-Ferradura de Kitakyushu (prefeitura de Fukuoka, Kyushu) é dedicado à espécie e conduz programas de criação e reintrodução. As baías pouco profundas do mar interior de Seto e do norte de Kyushu são os últimos habitats japoneses.

CALENDÁRIO DE OBSERVAÇÕES

DestinoJFMAMJJASOND
Delaware Bay (desova)
Flórida (desova)
Flórida (em mergulho)
Sudeste Asiático
Japão (Kyushu)

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CONSERVAÇÃO

Limulus polyphemus está classificado Vulnerável (VU) na Lista Vermelha da IUCN. As três espécies asiáticas encontram-se numa situação ainda mais crítica: Tachypleus tridentatus está classificado Em perigo (EN), e as populações do conjunto da área asiática diminuíram 80 a 90 % em trinta anos.

As ameaças são múltiplas. Na costa americana, a sobreexploração histórica como isco na pesca ao búzio e à enguia reduziu a população da baía do Delaware para metade entre os anos 1990 e 2000. A indústria biomédica recolhe anualmente cerca de 500 000 caranguejos-ferradura para lhes extrair o sangue — os animais são sangrados e depois libertados, mas a taxa de mortalidade pós-colheita atinge 10 a 30 %. A perda de habitat (urbanização costeira, enrocamento das margens) e as alterações climáticas (subida do nível do mar, erosão das praias de desova) somam-se a estas pressões.

No Sudeste Asiático, o consumo alimentar dos ovos e da carne, a destruição dos mangais e o desenvolvimento costeiro devastaram as populações. No Japão, a espécie está protegida desde 1928, mas permanece à beira da extinção local.

A boa notícia: existe um substituto sintético para o sangue de caranguejo-ferradura. O Fator C recombinante (rFC), desenvolvido em Singapura e aprovado na Europa desde 2020, deteta as endotoxinas bacterianas tão eficazmente como o LAL sem matar um único animal. A sua adoção progride, mas lentamente — a indústria farmacêutica permanece ainda maioritariamente dependente do sangue de caranguejo-ferradura.

Organizações e iniciativas:

3 COISAS QUE PROVAVELMENTE NÃO SABE

1. O sangue é azul — e vale 60 000 dólares por galão. O sangue do caranguejo-ferradura não contém hemoglobina (à base de ferro, vermelha) mas hemocianina — uma proteína de transporte de oxigénio à base de cobre, que dá ao sangue uma cor azul-leitosa. Mas é uma outra propriedade que torna este sangue inestimável: os seus amebócitos reagem instantaneamente ao menor vestígio de toxina bacteriana formando um coágulo gelatinoso. Este mecanismo está na base do teste LAL (Limulus Amebocyte Lysate), utilizado desde os anos 1970 para verificar a esterilidade de cada vacina, implante, prótese e dispositivo intravenoso colocado no mercado mundial. Cada injeção que recebeu na sua vida foi testada graças ao sangue de um caranguejo-ferradura.

2. Tem dez olhos. O caranguejo-ferradura possui dez olhos repartidos por todo o corpo — um recorde entre os artrópodes marinhos. Dois olhos compostos laterais (cerca de 1 000 facetas cada) detetam o movimento e a luz polarizada. Dois olhos simples medianos percecionam os ultravioletas. Um olho endoparietal, enterrado sob a carapaça, capta as variações de luminosidade para regular o relógio biológico. E cinco fotorrecetores suplementares estão disseminados sob a cauda e no ventre. Os trabalhos do neurofisiologista Haldan Keffer Hartline sobre o olho do caranguejo-ferradura valeram-lhe o Prémio Nobel da Medicina em 1967 — lançaram as bases da nossa compreensão da visão humana.

3. A NASA inspirou-se nele. A forma hidrodinâmica da carapaça do caranguejo-ferradura — concebida para se deslocar na areia e na lama sem se afundar — inspirou engenheiros da NASA para o design de sondas de exploração de terreno mole. E a forma como o caranguejo-ferradura processa a informação visual (a inibição lateral, em que cada fotorrecetor inibe os seus vizinhos para reforçar os contrastes) está diretamente integrada nos algoritmos de processamento de imagem dos satélites e das câmaras médicas.

DICAS DE FOTO E VÍDEO

O caranguejo-ferradura não é um tema espetacular à primeira vista — é um tema fascinante à segunda. A dificuldade não é técnica: o animal é lento, cooperante e pouco arisco. A dificuldade é contar uma história na imagem.

Objetiva. Macro ou objetiva standard (60-105 mm em caixa estanque, modo macro em compacta). Para um retrato cerrado mostrando os olhos, as patas ou as brânquias em livro, a macro é ideal. Para um plano de ambiente (caranguejo-ferradura sobre fundo de areia, casal em marcha), uma grande angular moderada (24-35 mm) funciona bem.

Luz. Em mergulho, o caranguejo-ferradura vive em fundos frequentemente turvos. Um ou dois flashes externos são quase indispensáveis para realçar os detalhes da carapaça e os reflexos acobreados. Em contrapartida, na praia durante a desova (Delaware Bay), a luz natural do crepúsculo produz as imagens mais evocativas — centenas de carapaças reluzentes na areia molhada, a perder de vista.

Aproximação. O caranguejo-ferradura não foge. Também não morde. Pode-se aproximar a 30 cm sem alterar o seu comportamento. Não o virar (o télson é frágil e o animal tem dificuldade em endireitar-se), não o levantar da água. Em período de desova, manter-se afastado dos ninhos — os ovos enterrados na areia são esmagados pelos passos.

A fotografia que conta. O plano mais eloquente é o do casal visto de baixo ou de frente: o macho, mais pequeno, agarrado à carapaça da fêmea pelas patas em gancho, arrastado pelo fundo como um passageiro clandestino. É uma imagem que mostra ao mesmo tempo a anatomia, o comportamento e a escala — e que lembra que esta cena se desenrola sem interrupção há 450 milhões de anos.

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