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Tubarão-martelo-recortado

Sphyrna lewini

Uma cabeça esculpida pela evolução para ver a 360 graus — e sentir o que nenhum outro tubarão percebe.

Tubarão-martelo-recortado (Sphyrna lewini)

FICHA DE IDENTIDADE

ClassificaçãoOrdem dos Carcharhiniformes, família dos Sphyrnidae
Nome científicoSphyrna lewini (Griffith & Smith, 1834)
TamanhoAté 4,3 m (média observada: 2,5-3,5 m)
PesoAté 150 kg
Velocidade~32 km/h em ponta
Longevidade30 anos ou mais
ProfundidadeSuperfície a mais de 500 m, mas observado mais frequentemente entre 20 e 40 m
DietaPredador generalista — peixes pelágicos, cefalópodes, raias, crustáceos
Estatuto UICNEm perigo crítico (CR) — população em declínio severo desde os anos 1990

RETRATO

Há uma silhueta que todo o mergulhador reconhece antes mesmo de a ver com nitidez: aquela que se recorta no azul do largo, cabeça achatada em forma de martelo, avançando em fila com outros indivíduos semelhantes. O tubarão-martelo-recortado não se parece com nada no oceano — e é precisamente isso que torna o seu encontro inesquecível.

Sphyrna lewini deve o seu nome ao cefalofólio, essa extensão lateral da cabeça que leva os olhos e as narinas até às suas extremidades. Longe de ser uma simples curiosidade anatômica, esta estrutura é um concentrado de engenharia sensorial: oferece ao tubarão uma visão quase panorâmica e multiplica a sua capacidade de detetar os ínfimos campos elétricos emitidos pelas presas, incluindo as que estão enterradas na areia. O martelo não é um handicap hidrodinâmico — é uma vantagem de caçador.

O que impressiona o mergulhador que cruza a espécie é também o seu comportamento gregário, raríssimo nos tubarões desta envergadura. Nas imediações de certos picos rochosos do Pacífico oriental, cardumes de várias centenas de indivíduos formam-se em plena água, girando lentamente acima do recife. Nadar no meio — ou antes na periferia, pois o animal permanece arisco — de um destes cardumes é uma experiência que poucos outros encontros subaquáticos igualam.

COMO RECONHECÊ-LO

O cefalofólio do tubarão-martelo-recortado distingue-se do dos seus primos pela forma: o bordo anterior é arredondado e ligeiramente festonado no centro, sem as indentações profundas do grande tubarão-martelo (Sphyrna mokarran) nem a forma quase retilínea do tubarão-martelo-liso (Sphyrna zygaena). É este contorno ligeiramente ondulado, em forma de asa delta arredondada, que dá o nome vernáculo à espécie — "recortado", pela forma do crescente.

O corpo é fuselado, cinzento-bronze a cinzento-castanho no dorso, branco no ventre, com a extremidade da barbatana peitoral frequentemente escura. A primeira barbatana dorsal é alta e falciforme, nitidamente maior do que no tubarão-martelo-liso — um ponto de referência útil para diferenciar as duas espécies num cardume misto, o que acontece em certos locais.

Debaixo de água, a identificação faz-se frequentemente à distância, antes mesmo de se distinguirem os detalhes: a natação em formação, cabeça oscilando ligeiramente de um lado para o outro — um movimento de varrimento que otimiza a deteção eletrossensorial — denuncia a espécie desde os primeiros metros de visibilidade.

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MODO DE VIDA

O tubarão-martelo-recortado é um dos raros grandes tubarões verdadeiramente sociais. As fêmeas adultas, em particular, formam cardumes que podem contar várias centenas de indivíduos junto a montes submarinos e picos vulcânicos isolados — um comportamento que os investigadores atribuem simultaneamente a uma função de termorregulação, de proteção contra predadores e de sinalização social ligada à reprodução. A hierarquia dentro do cardume parece negociar-se pela postura e posição relativa dos indivíduos, um comportamento documentado há muito tempo nas Galápagos.

À noite, estes cardumes dispersam-se: cada tubarão parte caçar em solitário, frequentemente em águas mais profundas, guiado pelo seu eletrorrecetores amplificado para localizar as presas enterradas — raias, peixes-chatos, cefalópodes — antes de regressar ao cardume ao amanhecer.

A espécie é vivípara: os embriões desenvolvem-se ligados à mãe por uma placenta vitelina, com uma ninhada que conta geralmente 15 a 30 crias após uma gestação de nove a dez meses. Facto notável, os recém-nascidos nascem com o cefalofólio dobrado para trás contra o corpo, flexível como cartilagem ainda maleável — uma adaptação que facilita a passagem durante o parto e que se desdobra e rigidifica nas horas que se seguem ao nascimento. As maternidades situam-se em águas costeiras pouco profundas, mangais e baías protegidas, longe dos locais onde os adultos formam os seus cardumes.

ONDE OBSERVÁ-LO

O tubarão-martelo-recortado frequenta as águas temperadas quentes e tropicais do globo, mas os seus ajuntamentos espetaculares só ocorrem num punhado de locais, quase todos associados a montes submarinos isolados batidos por correntes fortes.

Galápagos — Wolf e Darwin. O local de referência mundial. Os cardumes que patrulham ao largo destas duas ilhas do norte do arquipélago contam entre os mais densos conhecidos, particularmente em plena água ao largo da parede. Mergulho reservado a níveis avançados — correntes sustentadas, entrada em deriva, profundidade e fundo azul frequentes.

Ilha de Cocos, Costa Rica. Este parque nacional isolado a 500 km da costa é o outro grande santuário do Pacífico oriental. Bajo Alcyone e Dirty Rock são famosos pelos seus cardumes, observáveis durante todo o ano mas mais densos de junho a novembro. Acessível unicamente por cruzeiro de mergulho de vários dias.

Malpelo, Colômbia. Ilhéu rochoso isolado em pleno Pacífico, classificado como património mundial da UNESCO. As paredes de La Nevera e de El Fantasma atraem cardumes importantes, em condições de corrente entre as mais exigentes da região.

Mar VermelhoEgito. Os Brothers (Big Brother e Little Brother), Daedalus Reef e Elphinstone constituem o triângulo mítico onde os tubarões-martelo-recortados cruzam em plena água ao largo das paredes, geralmente no início da manhã. As observações são sazonais, concentradas de junho a setembro.

Layang Layang, Malásia. Este atol isolado do mar da China Meridional, apelidado de "pérola de Bornéu", é um dos raros locais do Sudeste Asiático onde a espécie se reúne em número, na parede norte entre abril e junho.

Rangiroa, Polinésia Francesa. Na passagem de Tiputa, os tubarões-martelo-recortados são observados em profundidade, frequentemente no limite da visibilidade, principalmente de dezembro a março — um encontro mais raro e mais fugaz do que nas Galápagos, mas procurado pelos mergulhadores da região.

CALENDÁRIO DE OBSERVAÇÕES

DestinoJFMAMJJASOND
Galápagos (Wolf/Darwin)
Ilha de Cocos (Costa Rica)
Malpelo (Colômbia)
Mar Vermelho (Brothers/Daedalus)
Layang Layang (Malásia)
Rangiroa (Polinésia Francesa)

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CONSERVAÇÃO

Sphyrna lewini está classificado como Em perigo crítico (CR) na Lista Vermelha da UICN — o nível de ameaça mais elevado antes da extinção em estado selvagem. A espécie está inscrita no Anexo II da CITES desde 2013, uma proteção obtida precisamente devido à pressão exercida pelo comércio das suas barbatanas.

A ameaça principal continua a ser a pesca dirigida para o mercado das barbatanas de tubarão: o cefalofólio característico da espécie torna as suas barbatanas particularmente identificáveis e procuradas nos mercados asiáticos, o que fez dela um dos alvos privilegiados desta pesca. Somam-se as capturas acidentais massivas nas redes e palangres da pesca industrial do atum, e a degradação dos mangais costeiros que servem de maternidades — um habitat já sob pressão na maioria das regiões tropicais.

O comportamento gregário da espécie, que faz a sua beleza para o mergulhador, é também a sua vulnerabilidade: os cardumes concentrados num pequeno número de montes submarinos conhecidos são alvos fáceis para uma pesca organizada, e o declínio de certas populações regionais ultrapassa os 90 % desde os anos 1990.

O mergulhador responsável mantém a distância, evita qualquer movimento brusco que disperse o cardume e nunca persegue um indivíduo isolado que se afasta para observar os mergulhadores — um comportamento de curiosidade que convém deixar desenrolar-se sem intervenção.

Organizações a apoiar:

  • MigraMar — investigação e seguimento por satélite dos tubarões-martelo do Pacífico oriental, das Galápagos a Malpelo
  • Fins Attached — proteção das populações de tubarões-martelo nas Galápagos
  • Save Our Seas Foundation — financiamento de projetos de investigação sobre elasmobrânquios
  • PADI AWARE — programa de ciência cidadã, registo de observações

3 COISAS QUE PROVAVELMENTE NÃO SABE

1. A sua cabeça vê o que a sua nunca verá. Graças ao afastamento dos olhos nas duas extremidades do cefalofólio, o tubarão-martelo-recortado dispõe de um campo de visão binocular em quase todas as direções, incluindo acima e abaixo de si — uma vantagem ótica que nenhum tubarão de cabeça convencional possui. Alguns estudos sugerem mesmo uma visão estereoscópica a 360 graus quase completa.

2. Nasce com a cabeça dobrada. Para facilitar a passagem durante o parto, os embriões de tubarão-martelo-recortado desenvolvem-se com o cefalofólio dobrado para trás contra o corpo, ainda flexível. Nas horas que se seguem ao nascimento, a estrutura desdobra-se e rigidifica-se progressivamente, até adquirir a forma característica do adulto.

3. Os seus cardumes têm uma hierarquia social. Os ajuntamentos de várias centenas de indivíduos observados nas Galápagos e na Ilha de Cocos não são simples agregações passivas: investigadores documentaram posturas de dominância e posições preferenciais dentro do cardume, negociadas por movimentos de natação precisos — um comportamento social de uma sofisticação rara nos tubarões, uma família no entanto reputada solitária.

DICAS DE FOTO E VÍDEO

O tubarão-martelo-recortado é um sujeito exigente: arisco, frequentemente cruzado em plena água no limite da visibilidade, em correntes que dão pouco tempo para ajustar as definições.

Objetiva. Grande angular obrigatória, idealmente um fisheye 8-15 mm em caixa estanque, para captar simultaneamente a silhueta do cardume e a profundidade de campo azul que dá a escala à cena. Em câmara de ação, privilegiar um modo grande angular sem recorte.

Luz. A espécie cruza geralmente entre 20 e 40 metros, uma profundidade onde o vermelho já desapareceu largamente do espetro. Um ligeiro ajuste de balanço de brancos ou um filtro vermelho em vídeo restitui o contraste à pele cinzenta sem desnaturar o azul da água. O flash é de proscrever a esta distância — ilumina apenas as partículas em suspensão entre a objetiva e o animal.

Aproximação. Nunca nadar em direção ao cardume: a espécie é nervosa e dispersa ao menor movimento frontal. A melhor aproximação consiste em posicionar-se a montante da corrente, imóvel ou em deriva lenta, e deixar o cardume aproximar-se naturalmente no eixo. Manter-se baixo na parede em vez de em plena água limita a silhueta percebida como ameaçadora.

Erro clássico. Seguir o cardume a barbatanas mal ele se afasta. Este reflexo, quase sempre perdedor diante de animais mais rápidos e mais económicos em energia, acelera a dispersão e compromete o resto do mergulho. É preferível pousar e esperar: um cardume que não é perturbado regressa frequentemente à mesma parede em poucos minutos.

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