Tubarão-azul
Prionace glauca
O tubarão mais difundido do planeta é também o mais massacrado.

FICHA DE IDENTIDADE
| Classificação | Ordem dos Carcharhiniformes, família dos Carcharhinidae |
| Nome científico | Prionace glauca (Linnaeus, 1758) |
| Tamanho | Até 3,8 m (média observada: 1,8-2,5 m) |
| Peso | Até 205 kg (média: 30-55 kg) |
| Velocidade | ~40 km/h em ponta, ~10 km/h em cruzeiro |
| Longevidade | 20-25 anos |
| Profundidade | Superfície até 350 m, mas observado mais frequentemente entre 0 e 150 m |
| Dieta | Predador pelágico — lulas, pequenos peixes pelágicos (cavalas, arenques), cefalópodes |
| Estatuto UICN | Quase ameaçado (NT) — população em declínio |
RETRATO
Tem o nome mais simples de todos os tubarões, e é o único que verdadeiramente o merece. O tubarão-azul é azul. Não cinzento-azulado como a maioria dos seláceos, não azul-negro em contraluz: azul-elétrico, azul-índigo no dorso, azul-cobalto nos flancos, passando a um branco imaculado no ventre. Debaixo de água, quando a luz incide na sua pele, o animal parece brilhar.
Prionace glauca é o tubarão mais difundido do mundo. Encontra-se em todos os oceanos, das águas temperadas frias aos trópicos, do círculo polar Ártico ao 50.º paralelo sul. É também o tubarão mais abundante — ou, mais exatamente, aquele que o era. Pois o tubarão-azul é igualmente o mais abatido: as estimativas convergem em torno de 20 milhões de indivíduos capturados anualmente nas pescarias mundiais, a grande maioria sob a forma de capturas acessórias nos palangres destinados a atuns e espadins.
O que impressiona primeiro, uma vez passada a cor, é a elegância da silhueta. O tubarão-azul é fuselado, quase gracil. As suas barbatanas peitorais são notavelmente longas — as mais longas, proporcionalmente, de todos os tubarões — e desdobra-as como asas de planador. O animal não nada: plana.
COMO RECONHECÊ-LO
O tubarão-azul não se confunde com nenhum outro tubarão pelágico, desde que se vejam as suas cores. O azul intenso do dorso e dos flancos superiores contrasta nitidamente com o branco puro do ventre, sem zona de transição. A caudal é longa, assimétrica, com um lobo superior muito alongado.
O corpo é estreito e hidrodinâmico, nitidamente mais fino do que o de um mako de tamanho comparável. O focinho é cónico, pontiagudo, sensivelmente mais comprido do que o dos outros carcharhinídeos. Os olhos são grandes, redondos, de um negro profundo. Mas o critério mais fiável é o comprimento das peitorais: atingem frequentemente um quinto do comprimento total do corpo, o que confere ao animal uma envergadura visível à distância.
Em profundidade ou em água fria, quando falta a luz, o azul vira cinzento-escuro e a identificação complica-se. O reflexo é então procurar a relação entre o comprimento do corpo e o das peitorais: nenhum outro tubarão de alto mar tem estas proporções.
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MODO DE VIDA
O tubarão-azul é um migrador de longa distância. Os indivíduos marcados por telemetria por satélite revelaram trajetos de mais de 9 000 km em linha reta, e alguns completam circuitos transoceânicos inteiros. No Atlântico Norte, a população segue um padrão circular: os indivíduos sobem ao longo das costas europeias na primavera, atravessam para a América do Norte no verão, descem pelas Caraíbas e os Açores no outono, e fecham o ciclo ao longo da África Ocidental. É uma das mais longas migrações conhecidas entre os tubarões.
O animal é gregário, pelo menos por fases. Observam-se regularmente cardumes segregados por sexo e por tamanho — as fêmeas de um lado, os machos do outro, os juvenis à parte. Esta segregação não é anedótica: estrutura a repartição geográfica da espécie. Os mergulhadores que encontram tubarões-azuis nos Açores veem quase exclusivamente fêmeas jovens; os da Cornualha cruzam-se mais com machos adultos.
A reprodução é vivípara placentária. A gestação dura de 9 a 12 meses, e a fêmea dá à luz 25 a 50 crias por ninhada, por vezes mais — até 135 foram documentadas. A pele da fêmea é duas a três vezes mais espessa do que a do macho, uma adaptação direta à violência do acasalamento: o macho morde a fêmea para a manter, e as cicatrizes são tão profundas que se podem distinguir as fêmeas maturas a olho nu.
ONDE OBSERVÁ-LO
O tubarão-azul frequenta todos os oceanos, mas os encontros em mergulho são raros: o animal vive em plena água, longe das costas e longe dos recifes. É preciso ir procurá-lo. Um punhado de destinos especializou-se em colocações em água enquadradas, quase sempre em snorkeling ou em mergulho à deriva a partir de um barco ao largo.
Açores (Portugal). O arquipélago é hoje o primeiro destino mundial para o tubarão-azul em mergulho. As saídas partem de Ponta Delgada ou do Faial entre junho e outubro. Os operadores utilizam um isco olfativo para atrair os animais até ao barco, e os mergulhadores entram na água à superfície. A visibilidade atlântica — frequentemente 25 a 40 metros no verão — e a densidade da espécie nas águas açorianas tornam os encontros quase certos em época alta. Cruzam-se aí quase exclusivamente fêmeas jovens de 1,5 a 2,5 metros, curiosas e pouco ariscas.
Cape Point (África do Sul). Ao largo da ponta do Cabo, onde o Atlântico encontra o Índico, as águas frias e ricas atraem os tubarões-azuis durante todo o ano, com um pico de março a setembro. As saídas partem de Simon's Town. A água é mais fria do que nos Açores (14-18 graus C) e a visibilidade mais variável, mas os animais são frequentemente maiores — adultos de 2,5 a 3 metros. Os tubarões-mako partilham as mesmas águas, e as duas espécies aparecem por vezes no mesmo dia.
Cornualha (Reino Unido). O sudoeste de Inglaterra é um local pouco conhecido mas sério. De julho a outubro, os tubarões-azuis seguem os cardumes de cavalas nas águas temperadas do Canal da Mancha ocidental. As saídas partem de Penzance ou de Falmouth. A água é fria (14-17 graus C) e a visibilidade modesta (5-15 metros), mas a proximidade com a Europa continental e a qualidade dos operadores fazem dela uma destinação acessível.
Nova Inglaterra (Estados Unidos — Rhode Island). Ao largo de Montauk e do Rhode Island, o Gulf Stream empurra os tubarões-azuis para junto da costa de julho a outubro. As saídas offshore de 30 a 60 milhas partem de Point Judith e de Narragansett. As águas da orla do Gulf Stream oferecem uma visibilidade de 10 a 30 metros e temperaturas suportáveis (18-24 graus C), com animais de bom porte.
Baja Califórnia (México). Ao largo de Cabo San Lucas e de La Paz, os tubarões-azuis estão presentes de novembro a abril nas águas do Pacífico oriental. A época coincide com as águas frias da corrente da Califórnia, e os mergulhadores cruzam-se regularmente com makos e com tubarões-martelo nas mesmas saídas.
CALENDÁRIO DE OBSERVAÇÕES
| Destino | J | F | M | A | M | J | J | A | S | O | N | D |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Açores (Portugal) | ||||||||||||
| Cape Point (África do Sul) | ||||||||||||
| Cornualha (Reino Unido) | ||||||||||||
| Nova Inglaterra (Rhode Island) | ||||||||||||
| Baja Califórnia (México) |
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CONSERVAÇÃO
Prionace glauca está classificado Quase ameaçado (NT) na Lista Vermelha da UICN. Este estatuto parece quase tranquilizador face à realidade: o tubarão-azul é, em número absoluto, o tubarão mais capturado do mundo. Cerca de 20 milhões de indivíduos perecem todos os anos nas redes e nos palangres da pesca industrial, ou seja, perto de 55 000 por dia.
O essencial desta mortalidade é acidental. Os palangres destinados a atuns e espadins derivam ao longo de dezenas de quilómetros, e o tubarão-azul agarra-se massivamente a eles — é o primeiro elasmobrânquio em volume de capturas acessórias no Atlântico e no Pacífico. Mas uma parte crescente é também deliberada: as barbatanas do tubarão-azul alimentam o mercado asiático da sopa de barbatana, e a sua carne é consumida na Europa, nomeadamente em Espanha, Portugal e Itália, onde é vendida sob o nome de marrajo ou smeriglio.
A espécie está inscrita no Anexo II da Convenção sobre as Espécies Migratórias (CMS). A sua fertilidade elevada — ninhadas de 25 a 50 crias — explica que a população resista melhor do que outras espécies a esta pressão, mas os sinais de declínio estão presentes. As populações do Atlântico Norte diminuíram um terço em trinta anos; as do Pacífico seguem a mesma tendência.
O mergulhador que encontra um tubarão-azul vê um animal que tem, estatisticamente, muito poucas hipóteses de atingir a idade adulta. Apoiar as investigações sobre a seletividade das artes de pesca e as campanhas para proibir o finning é o gesto mais útil.
Organizações a apoiar:
- Shark Trust — ONG britânica dedicada à conservação dos tubarões, muito ativa no tubarão-azul no Atlântico Norte
- Blue Shark Snorkel — investigação e foto-identificação na Cornualha
- Pelagios Kakunjá — investigação sobre os tubarões pelágicos do Pacífico oriental
- PADI AWARE — programa de ciência cidadã, reportação de observações
3 COISAS QUE PROVAVELMENTE NÃO SABE
1. A pele inventou a hidrodinâmica moderna. A pele do tubarão-azul é revestida de dentículos dérmicos dispostos em sulcos longitudinais que canalizam o escoamento da água e reduzem o arrasto. Esta microestrutura inspirou os fatos de natação de alta competição e os revestimentos aeronáuticos. A Airbus testou uma película adesiva imitada da pele de tubarão no A350: o ganho de combustível é mensurável — da ordem de 1 a 2 %.
2. Dá a volta ao Atlântico num ano. Os dados de marcação por satélite mostram que certos tubarões-azuis completam um circuito transoceânico inteiro no Atlântico Norte. Partem das costas europeias, atravessam para a América do Norte seguindo o Gulf Stream, descem ao longo da costa americana até às Caraíbas, e regressam em direção à África e aos Açores acompanhando os alísios. Um trajeto de mais de 15 000 km, completado uma a duas vezes por ano.
3. As fêmeas usam armadura. A pele da fêmea do tubarão-azul é duas a três vezes mais espessa do que a do macho — uma adaptação única à brutalidade do acasalamento. O macho agarra-se mordendo profundamente o dorso e os flancos da fêmea, que ostenta depois cicatrizes paralelas distintivas durante meses. Os biólogos utilizam estas marcas para identificar as fêmeas que se reproduziram recentemente.
DICAS DE FOTO E VÍDEO
O tubarão-azul fotografa-se quase sempre à superfície ou a pouca profundidade, a partir da água, sem garrafa. O desafio não é a profundidade — é a cor.
Objetiva. Grande angular obrigatória, mas não necessariamente um fisheye: uma retilínea de 16-24 mm (equivalente full frame) restitui melhor as proporções do corpo. O tubarão-azul é mais fino do que um tubarão-baleia ou do que um grande branco, e o fisheye exagera a cabeça em detrimento da silhueta de conjunto.
Luz. O azul do animal é o seu melhor trunfo — e só ressalta se a luz natural for generosa. Mergulhar nas horas centrais do dia, quando o sol penetra verticalmente na água. O flash esmaga os reflexos metálicos da pele e achata a cor. Em vídeo, desativar o balanço de brancos automático e fixá-lo manualmente para preservar os azuis frios.
Aproximação. O tubarão-azul é curioso. Demasiado curioso, por vezes: aproxima-se do fotógrafo, gira à sua volta, regressa. Não recuar (é um sinal de presa), não lhe tocar. Deixar-se orbitar e disparar quando o animal apresenta o flanco, a 2-3 metros. As melhores imagens são aquelas em que a luz incide no dorso a 45 graus, revelando o degradado do azul-elétrico ao branco do ventre.
Erro clássico. Esquecer o plano de fundo. O tubarão-azul vive em plena água: atrás dele, só há azul. Sem referência visual — um mergulhador, à superfície, a silhueta do barco — a imagem carece de escala e de profundidade. Colocar um companheiro no enquadramento, mesmo desfocado e recuado, muda a fotografia.



