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Lontra-marinha

Enhydra lutris

Parte conchas com uma pedra, dorme de mão dada e possui a pelagem mais densa do reino animal.

Lontra-marinha (Enhydra lutris)

FICHA DE IDENTIDADE

ClassificaçãoOrdem dos Carnívora, família dos Mustelídeos
Nome científicoEnhydra lutris (Linnaeus, 1758)
Tamanho1,00 a 1,50 m (machos até 1,50 m, fêmeas até 1,20 m)
Peso14 a 45 kg (macho adulto: 22-45 kg; fêmea: 14-33 kg)
Velocidade~9 km/h em nado, até 1,5 km/h em cruzeiro
Longevidade15 a 20 anos (machos ~15 anos, fêmeas ~20 anos)
ProfundidadeMergulhos habituais a 5-20 m, até 100 m em caso de necessidade
DietaCarnívoroouriços-do-mar, abalone, mexilhões, caranguejos, amêijoas, peixes
Estatuto UICNEm perigo (EN) — população estimada em ~125 000 indivíduos, contra 150 000 a 300 000 antes do comércio de peles

RETRATO

Há animais que se observam a partir da superfície e que mudam a forma como olhamos para o oceano. A lontra-marinha é um deles. Avista-se ao longe, a flutuar de costas nos campos de kelp, uma pedra sobre a barriga, um ouriço-do-mar entre as patas — e percebe-se que se tem diante dos olhos um dos mamíferos marinhos mais notáveis do planeta.

Enhydra lutris é o mais pequeno mamífero marinho, mas também o mais densamente peludo de todos os mamíferos: até 150 000 pelos por centímetro quadrado, ou seja, um milhão de pelos por polegada quadrada. Esta pelagem não é um luxo — é uma necessidade vital. Ao contrário das focas e das baleias, a lontra-marinha não possui qualquer camada de gordura subcutânea. É o ar aprisionado entre as fibras da sua pelagem que a isola das águas frias do Pacífico Norte, onde a temperatura desce frequentemente abaixo dos 10 graus.

Para manter este isolamento, consagra uma parte considerável do seu dia ao tratamento da pelagem — soprando ar para dentro do pelo, enrolando-o, penteando-o com as patas dianteiras. Uma pelagem mal cuidada significa água fria contra a pele. E uma lontra molhada até à pele é uma lontra em hipotermia.

COMO RECONHECÊ-LO

A lontra-marinha não se confunde com as outras lontras. É nitidamente maior e mais maciça do que a sua prima de rio, e o seu modo de vida é inteiramente marinho — só sobe à terra raramente, em certas populações do Alasca. A sua silhueta característica, a flutuar de costas à superfície, é imediatamente identificável.

O corpo é longo e fuselado, as patas traseiras palmadas e achatadas como barbatanas. As patas dianteiras são curtas, arredondadas, sem dedos individualizados visíveis — verdadeiras luvas, perfeitas para agarrar presas e manipular ferramentas. A cauda é curta e espessa, achatada, servindo de leme.

A pelagem varia do castanho-escuro quase negro ao castanho-claro, com a cabeça e o pescoço frequentemente mais claros — por vezes quase brancos nos indivíduos idosos. O focinho é curto e arredondado, ornado de longas vibrissas muito sensíveis, capazes de detetar os movimentos das presas em água turva ou na escuridão dos fundos.

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MODO DE VIDA

A lontra-marinha vive nas águas costeiras pouco profundas do Pacífico Norte, quase sempre na proximidade das florestas de kelp gigante que lhe servem ao mesmo tempo de despensa, de abrigo contra as correntes e de ponto de ancoragem para dormir. Enrola-se nas frondes de kelp como numa rede para evitar derivar durante o sono — um comportamento que se pode observar a binóculo a partir da costa.

E depois há a outra imagem, aquela que correu mundo: as lontras que dormem de mão dada. Não é uma lenda. Os pares mãe-cria e os grupos de fêmeas formam regularmente jangadas — por vezes de várias dezenas, até centenas de indivíduos — flutuando de costas, patas entrelaçadas, para não se separarem com a corrente.

A sua alimentação é um espetáculo em si. A lontra mergulha até 40 metros — por vezes mais — para arrancar ouriços-do-mar, abalone e amêijoas do fundo rochoso. Depois sobe, vira-se de costas, pousa a presa sobre a barriga e bate-lhe com uma pedra chata que transporta consigo. É um dos raríssimos casos de utilização de ferramentas no mundo marinho — é o único mamífero marinho a fazê-lo de forma sistemática. Certos indivíduos guardam a sua pedra favorita numa bolsa de pele debaixo da axila, por vezes durante anos.

Para sustentar um metabolismo entre os mais elevados de todos os mamíferos — 2,5 vezes o de um mamífero terrestre do mesmo tamanho —, tem de ingerir todos os dias o equivalente a 25 a 30 % do seu peso corporal. Um macho de 30 kg come portanto 7 a 9 kg de alimento por dia.

ONDE OBSERVÁ-LO

A lontra-marinha frequenta exclusivamente as costas do Pacífico Norte, das ilhas Curilas à Baixa Califórnia. Eis os destinos onde as hipóteses de observação são mais elevadas:

Monterey Bay, Califórnia — o melhor local do mundo. A baía de Monterey alberga cerca de 3 000 lontras-marinhas, a população mais acessível e mais estudada do planeta. A partir da margem de Elkhorn Slough, de Moss Landing ou do Monterey Bay Aquarium, observam-se jangadas de dezenas de indivíduos a poucos metros de distância, sem sequer necessitar de barco. Os caiaquistas deslizam regularmente entre as lontras nos campos de kelp. Presença durante todo o ano, com um pico de crias na primavera e no verão.

Alasca — Kenai Fjords e Katmai. O Alasca alberga a maior população de lontras-marinhas do mundo — cerca de 90 000 indivíduos, dos quais 25 000 só no estreito de Prince William. O parque nacional de Kenai Fjords e a península de Katmai oferecem observações a partir dos circuitos de barco que costejam os glaciares. As jangadas do Alasca são as maiores — por vezes várias centenas de indivíduos. Melhor estação: maio a setembro.

Columbia Britânica — ilha de Vancouver. A costa oeste da ilha de Vancouver, em torno de Tofino e da reserva de Pacific Rim, alberga uma população em crescimento rápido — de 13 indivíduos reintroduzidos nos anos 1970 a mais de 8 000 hoje. As excursões de zodiac a partir de Tofino cruzam regularmente grupos de lontras nas baías abrigadas. Melhor estação: maio a outubro.

Rússia — ilhas do Comandante. O arquipélago das ilhas do Comandante, ao largo de Kamchatka, é o último bastião da subespécie asiática (E. l. lutris). O acesso é difícil — reserva natural isolada, sem voo regular —, mas as lontras vivem aí em águas entre as mais ricas e mais selvagens do Pacífico. Foi aqui que Georg Steller as descreveu pela primeira vez em 1751, pouco antes de o comércio de peles começar a dizimá-las.

CALENDÁRIO DE OBSERVAÇÕES

DestinoJFMAMJJASOND
Monterey Bay (Califórnia)
Alasca (Kenai Fjords)
Columbia Britânica (Tofino)
Rússia (ilhas do Comandante)

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CONSERVAÇÃO

Enhydra lutris está classificada como Em perigo (EN) na Lista Vermelha da UICN. A população mundial atual — cerca de 125 000 indivíduos — não representa mais do que uma fração do que era antes do comércio de peles dos séculos XVIII e XIX. Entre 1741 e 1911, a caça comercial reduziu a espécie de 150 000-300 000 indivíduos a menos de 2 000, dispersos em algumas colónias relictuais. O Tratado sobre as Otárias de Pelo do Pacífico Norte de 1911 pôs fim ao massacre, e as populações reconstituíram-se lentamente — mas nunca recuperaram a sua área de repartição histórica.

As ameaças atuais são múltiplas: marés negras (a catástrofe do Exxon Valdez em 1989 matou cerca de 2 800 lontras no Alasca), predação por orcas (em aumento desde os anos 1990, provavelmente ligada ao declínio das suas presas habituais), parasitas de origem terrestre (Toxoplasma gondii transportado pelas águas de escoamento urbanas) e conflitos com a pesca costeira pelos mesmos recursos — ouriços-do-mar, abalone, caranguejos.

Mas a lontra-marinha é também uma espécie-chave — e talvez o exemplo mais espetacular deste conceito em ecologia marinha. Ao alimentar-se de ouriços-do-mar, controla as suas populações. Sem lontra, os ouriços proliferam e arrasam as florestas de kelp, transformando ecossistemas ricos e tridimensionais em desertos subaquáticos. Com a lontra, o kelp prospera — e com ele centenas de espécies de peixes, invertebrados e mamíferos marinhos que dele dependem. Estudos mostraram que as florestas de kelp protegidas pelas lontras sequestram até 12 vezes mais carbono do que aquelas onde os ouriços dominam.

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3 COISAS QUE PROVAVELMENTE NÃO SABE

1. A sua pelagem é a mais densa do reino animal — e de longe. Com até 150 000 pelos por centímetro quadrado, a lontra-marinha detém o recorde absoluto de densidade de pelagem. Para comparação, um humano tem cerca de 100 000 cabelos em toda a cabeça. A lontra tem o mesmo numa única polegada quadrada de pele. Esta pelagem dupla — um subpelo extremamente fino e denso, coberto por pelos de guarda mais longos — cria uma camada de ar isolante tão eficaz que a pele da lontra nunca toca na água fria.

2. Usa ferramentas — e cada lontra tem a sua pedra preferida. A lontra-marinha é um dos raríssimos mamíferos marinhos a utilizar ferramentas. Seleciona uma pedra chata, guarda-a debaixo da axila numa bolsa de pele solta e tira-a a cada refeição para partir conchas sobre a barriga. Estudos mostraram que certos indivíduos conservam a mesma pedra durante meses, até anos, e que a escolha da ferramenta varia conforme a presa: pedra chata para o abalone, seixo arredondado para os mexilhões. Investigadores da Universidade da Califórnia identificaram até marcas de desgaste específicas nas pedras, provando que cada lontra desenvolve a sua própria técnica.

3. Sem ela, as florestas submarinas desaparecem. O efeito da lontra-marinha no seu ecossistema é tão poderoso que se vê a partir do espaço. As imagens de satélite mostram claramente a diferença entre as costas onde as lontras estão presentes — cobertas de copas de kelp densas e contínuas — e aquelas de onde desapareceram — rochosas e nuas, roídas pelos ouriços-do-mar. Este fenómeno, chamado cascata trófica, é um dos mais bem documentados da ecologia: lontra come ouriço, ouriço já não come kelp, kelp abriga centenas de espécies. Retire-se a lontra, tudo desaba.

DICAS DE FOTO E VÍDEO

A lontra-marinha fotografa-se principalmente a partir da superfície — caiaque, pequeno barco, ou até mesmo à costa em Monterey. É um tema cooperativo: flutua de costas, não foge e oferece poses naturalmente fotogénicas — mãe com a cria sobre a barriga, ferramenta na mão, ou jangada de dezenas de indivíduos adormecidos.

Objetiva. Teleobjetiva indispensável a partir da costa: 200-400 mm no mínimo, idealmente uma 100-400 mm estabilizada. A partir de um caiaque, uma 70-200 mm basta frequentemente — as lontras toleram distâncias de 10 a 15 metros, por vezes menos. Uma objetiva macro ou um complemento de proximidade pode captar os detalhes fascinantes da pelagem e das patas.

Luz. As melhores condições são ao início e ao fim do dia, quando a luz rasante doura a pelagem e suaviza os reflexos na água. A pelagem molhada da lontra é muito escura e absorve a luz — uma ligeira sobrexposição (+0,7 a +1 IL) compensa o risco de subexposição do tema. Com tempo encoberto, os reflexos desaparecem e as cores da pelagem sobressaem melhor.

Aproximação. Em caiaque, avançar lentamente, em silêncio, sem gestos bruscos. As lontras de Monterey estão habituadas às embarcações e deixam-se aproximar a poucos metros. No Alasca ou na Columbia Britânica, são mais receosas — respeitar 20 metros no mínimo e desligar o motor bem antes de chegar.

O momento a não perder. A mãe que pousa a cria sobre a barriga para a limpar, a recoloca na água, a recupera. A lontra que bate uma concha na sua pedra — o som ouve-se ao longe e permite localizá-la pelo ouvido antes de a ver. A jangada adormecida ao pôr do sol, as patas entrelaçadas.

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