Português
DivingDeal.com

Narval

Monodon monoceros

O unicórnio dos mares existe. Leva o seu chifre ao contrário: é um dente.

Narval (Monodon monoceros)

FICHA DE IDENTIDADE

ClassificaçãoOrdem dos Cetáceos, família dos Monodontídeos
Nome científicoMonodon monoceros (Linnaeus, 1758)
Tamanho4 a 5,5 m (corpo, sem a presa)
Peso800 a 1 600 kg
PresaAté 3 m — canino superior esquerdo de crescimento contínuo
Longevidade50 anos em média, até 115 anos (estimativas isotópicas)
ProfundidadeMergulhos correntes a 800 m, recorde registado a 1 864 m
DietaAlabote da Groenlândia, bacalhau ártico, lulas, camarões
Estatuto UICNPouco preocupante (LC) — mas populações vulneráveis às alterações climáticas

RETRATO

Chamam-lhe o unicórnio dos mares. O nome é romântico, e por uma vez não mente de todo: o narval leva uma presa espiralada que pode ultrapassar três metros de comprimento, apontada em frente como o chifre de um animal mítico. Só que não é um chifre. É um dente.

Mais precisamente, é o canino superior esquerdo, que perfura o lábio e cresce em espiral para a frente ao longo de toda a vida do animal. Só cresce nos machos — com raras exceções, cerca de 15 % das fêmeas possuem uma, mais curta. E num caso em cada quinhentos, um macho possui duas: o canino direito, habitualmente vestigial, desenvolve-se simetricamente. O espetáculo é impressionante. Durante séculos, a presa do narval alimentou o comércio mais lucrativo do Ártico. Os Vikings vendiam-na às cortes europeias como chifre de unicórnio — alicornio — a preços que rivalizavam com o ouro.

Em 2014, investigadores da Universidade de Harvard demonstraram que a presa é um órgão sensorial: dez milhões de terminações nervosas percorrem a sua superfície, capazes de detetar variações de temperatura, salinidade e pressão. O narval não empunha uma arma. Passeia uma antena.

COMO RECONHECÊ-LO

O narval é um cetáceo de tamanho médio, atarracado, sem barbatana dorsal — um traço que partilha com o seu primo beluga e que lhe permite nadar sob a banquisa sem se ferir. No seu lugar, uma crista dorsal baixa e irregular corre sobre o último terço do dorso.

A pelagem muda com a idade. Os recém-nascidos são cinzento-azulados uniformes. Os juvenis cobrem-se progressivamente de marmoreados escuros sobre fundo claro. Os adultos apresentam um dorso salpicado de preto e cinzento sobre fundo branco, com o ventre pálido. Os machos mais velhos tornam-se quase inteiramente brancos — é aliás a origem provável do nome narval, do antigo nórdico nar (cadáver) e hvalr (baleia): a baleia-cadáver, pela pele pálida e malhada.

À superfície, reconhece-se por três coisas: a ausência de dorsal, a pelagem marmoreada, e sobretudo a presa, quando ultrapassa a água no momento da respiração. Os grupos sobem frequentemente juntos, alinhando as presas na vertical — um comportamento chamado tusking, cuja função exata continua debatida: troca sensorial, hierarquia social, ou ambas.

Para legendas em português: inicie primeiro o vídeodepois clique na roda dentadano canto superior direito do vídeo, selecione «Legendas», depois «Traduzir automaticamente» e escolha «Português».

MODO DE VIDA

O narval é um especialista do Ártico. Vive todo o ano nas águas mais frias do planeta, entre 70 e 80 graus de latitude norte, e nunca desce abaixo do círculo polar. É um dos mamíferos marinhos mais setentrionais — com a morsa e o urso-polar, define a fauna da banquisa.

O animal é gregário. Desloca-se em grupos de dez a vinte indivíduos, por vezes em agregações de várias centenas durante as migrações sazonais. No verão, os narvais dirigem-se para os fiordes e baías costeiras pouco profundas do Alto Ártico canadiano e groenlandês. No inverno, migram para alto mar e às águas profundas da baía de Baffin e do estreito de Davis, onde a banquisa se fecha sobre eles.

É aí que o narval revela a sua capacidade mais espetacular: o mergulho profundo. O animal desce correntemente a 800 metros, e balizas satelitárias registaram mergulhos a 1 864 metros — entre os mais profundos jamais documentados num mamífero marinho. No inverno, efetua até vinte e cinco mergulhos profundos por dia, cada um durando cerca de vinte minutos, para caçar o alabote da Groenlândia no fundo. Entre dois mergulhos, sobe para respirar por fissuras na banquisa — polinias — que reencontra com uma precisão notável na escuridão polar.

A reprodução tem lugar na primavera, em abril. A gestação dura catorze a quinze meses. A fêmea dá à luz uma única cria, que amamenta durante mais de um ano. O intervalo entre dois nascimentos é de três anos em média — um ritmo lento, típico dos grandes cetáceos, que torna a população sensível a qualquer sobremortalidade.

ONDE OBSERVÁ-LO

O narval não é um animal que se cruze em mergulho. Vive sob a banquisa, em águas a -1 grau, e desce a profundidades inacessíveis. A observação faz-se a partir da superfície — bordo de banquisa, barco, caiaque — e continua a ser uma das experiências mais raras e mais procuradas do mundo Ártico.

Ártico canadiano — ilha de Baffin e estreito de Lancaster. É o coração da área de distribuição estival. O estreito de Lancaster, entre a ilha de Baffin e a ilha Devon, concentra a maior população mundial de narvais — cerca de 45 000 indivíduos no verão. As comunidades de Arctic Bay e de Pond Inlet servem de base às expedições. A observação faz-se a partir do bordo da banquisa (floe edge), onde os narvais sobem para respirar nos canais de água livre que se abrem na primavera. A estação vai de final de maio a início de agosto. É o melhor lugar do mundo para ver narvais, e um dos únicos onde a observação é quase garantida em época.

Groenlândia — Scoresby Sound. O maior sistema de fiordes do mundo, na costa leste da Groenlândia, alberga uma população residente de narvais. O acesso é mais difícil do que no Ártico canadiano — Ittoqqortoormiit, a aldeia mais próxima, é uma das localidades mais isoladas do planeta — mas o cenário é de cortar a respiração: icebergues tabulares, fiordes encaixados, luz polar. A estação de observação vai de julho a setembro.

Svalbard (Noruega). Narvais são observados ocasionalmente nas águas do Svalbard, em particular nos fiordes do nordeste do arquipélago. Mas a espécie é rara ali — o essencial da população concentra-se no Ártico canadiano e groenlandês. O Svalbard continua a ser sobretudo um destino para a morsa e o urso-polar.

CALENDÁRIO DE OBSERVAÇÕES

DestinoJFMAMJJASOND
Ártico canadiano (Lancaster Sound)
Groenlândia (Scoresby Sound)
Svalbard

Clique em cada botão para mostrar/ocultar

Nota: o Svalbard não apresenta uma estação fiável para o narval. As observações são ocasionais e imprevisíveis.

CONSERVAÇÃO

Monodon monoceros está classificado como Pouco preocupante (LC) na Lista Vermelha da UICN. A população mundial é estimada em cerca de 80 000 indivíduos, repartidos por uma dezena de stocks distintos entre o Canadá, a Groenlândia e as águas europeias do Ártico.

O estatuto é enganador. O narval é um dos mamíferos marinhos mais vulneráveis às alterações climáticas, por uma razão simples: é hiper-especializado. A sua área de distribuição é estreita, o seu regime alimentar depende de espécies de fundo ligadas às águas frias, e a sua sobrevivência invernal assenta numa rede de polinias cuja geografia muda com o recuo da banquisa. Qualquer modificação do regime dos gelos ameaça-o diretamente — pela perda de habitat, pela abertura de novas rotas aos predadores (orcas, cada vez mais presentes no Ártico) e pelo aumento do tráfego marítimo em águas outrora inacessíveis.

Os Inuites caçam o narval há milênios. Esta caça de subsistência, enquadrada por quotas no Canadá e na Groenlândia, continua cultural e nutricionalmente essencial para as comunidades do Alto Ártico. O muktuk — pele e gordura do narval — é uma das fontes mais ricas em vitamina C disponíveis num ambiente onde nada cresce. O comércio internacional da presa é regulamentado pela CITES (Anexo II).

Um fenómeno preocupante multiplica-se: os entrapments, ou armadilhamento pelos gelos. Quando a banquisa se fecha brutalmente sobre um grupo de narvais, os animais ficam prisioneiros numa polinia que encolhe, incapazes de migrar para alto mar. Centenas podem morrer em poucos dias.

Organizações a apoiar:

3 COISAS QUE PROVAVELMENTE NÃO SABE

1. A presa gira sempre no mesmo sentido — e ninguém sabe porquê. Todos os narvais, sem exceção, possuem uma presa espiralada no sentido anti-horário (visto da base). Mesmo os indivíduos com duas presas: ambas giram para a esquerda. Não é consequência de uma rotação durante o crescimento — o próprio dente é assimétrico à escala celular. A explicação permanece um mistério da biologia do desenvolvimento.

2. Pode suster a respiração durante vinte e cinco minutos — e descer na escuridão total. Nos seus mergulhos invernais a mais de 1 500 metros, o narval evolui numa escuridão absoluta, sob uma banquisa contínua, a pressões que esmagariam um submarino de bolso. Caça o alabote da Groenlândia por ecolocalização, sobe para respirar por uma fissura que memorizou, e recomeça vinte e cinco vezes por dia. Tudo numa água a -1,5 graus, sem fato: apenas doze centímetros de gordura subcutânea.

3. Os Inuites usam-no como barômetro. Nas comunidades do Ártico canadiano, a chegada dos narvais ao bordo da banquisa na primavera é um indicador fiável do degelo. Os caçadores observam a direção e a velocidade dos grupos para antecipar a abertura dos canais — um saber ecológico tradicional que os climatologistas começam a integrar nos seus modelos.

DICAS DE FOTO E VÍDEO

O narval não é um sujeito subaquático. Fotografa-se a partir da superfície — bordo de banquisa, barco, caiaque, e cada vez mais frequentemente por drone. As condições árticas tornam cada imagem exigente, mas os resultados estão entre os mais procurados da fotografia de vida selvagem.

Objetiva. Teleobjetiva longa, 200-600 mm no mínimo. Os narvais sobem a 10-50 metros do bordo da banquisa nos melhores casos, mas a distância média é frequentemente de 100 metros ou mais. Para tomadas por drone (onde a regulamentação o permite), o narval é um sujeito ideal: a presa e a pelagem marmoreada são imediatamente legíveis vistas de cima.

Luz. No Ártico, a luz é baixa, rasante e dourada durante horas — o sol da meia-noite oferece uma iluminação de golden hour quase permanente em junho-julho. Mas a intensidade é fraca: trabalhar a alta sensibilidade (ISO 800-3200) e abrir ao máximo. A reverberação sobre o gelo e a água engana as células: subexpor de um terço a dois terços em relação à medição.

Aproximação. A paciência é a única técnica. O narval é medroso — não se aproxima dos barcos e foge do barulho dos motores. O bordo de banquisa (floe edge) é o melhor posto de observação: instalar-se, esperar, e os animais vêm respirar no canal. Não se manter de pé contra o céu — a silhueta humana fá-los mergulhar.

Erro clássico. Disparar ao primeiro sopro. O narval sobe, respira duas a três vezes, e volta a mergulhar. A primeira respiração é breve e frequentemente mal orientada. Esperar pela segunda ou terceira, quando o animal se estabiliza à superfície e a presa se ergue na vertical — é essa a imagem.

ESPÉCIES RELACIONADAS