Papagaio-do-mar
Fratercula arctica
O palhaço dos mares só faz rir quem nunca o viu mergulhar.

FICHA DE IDENTIDADE
| Classificação | Ordem dos Charadriiformes, família dos Alcídeos |
| Nome científico | Fratercula arctica (Linnaeus, 1758) |
| Tamanho | 26-29 cm de comprimento, envergadura 47-63 cm |
| Peso | 310-500 g |
| Velocidade | Até 88 km/h em voo (batimentos de asas: 400/min) |
| Longevidade | 20-30 anos (recorde: mais de 40 anos) |
| Profundidade | Até 60 m, mas caça mais frequentemente entre 15 e 30 m |
| Dieta | Piscívoro — galeotas (sand eels), espadilhas, arenques juvenis, capelins |
| Estatuto UICN | Vulnerável (VU) — população em declínio, principalmente devido ao aquecimento climático |
RETRATO
Chamam-lhe o palhaço dos mares, e é injusto. O papagaio-do-mar nada tem de bufão. É uma ave construída para o esforço, capaz de mergulhar a 60 metros sob a superfície do Atlântico Norte e de cortar o ar a 88 km/h batendo as asas quatrocentas vezes por minuto. A alcunha vem-lhe do rosto: uma máscara triangular negra e branca, encimada por um bico maciço pintado em faixas laranja, vermelho e azul-ardósia — um bico tão desproporcionado que parece emprestado de outro animal. O efeito é cómico. A ave, essa, é terrivelmente séria.
Fratercula arctica — «pequeno frade do Ártico» — é o único papagaio-do-mar do Atlântico. Os seus dois primos, o papagaio-do-mar-de-poupa e o papagaio-do-mar-rinoceronte, vivem no Pacífico. Ele ocupa as falésias e os ilhéus batidos pelo vento, da Islândia à Bretanha, da Noruega à Terra Nova. É uma ave pelágica: fora da época de nidificação, passa meses em pleno mar sem nunca tocar terra, dormindo sobre as ondas, alimentando-se em mergulho, invisível.
O bico que o tornou célebre não é permanente. No outono, após a reprodução, as placas córneas coloridas caem. O bico de inverno é mais pequeno, mais desbotado, quase irreconhecível. Os ornitólogos que o descreveram pela primeira vez em plumagem de inverno julgaram estar perante uma espécie diferente. O papagaio-do-mar não se disfarça: despe-se.
COMO RECONHECÊ-LO
No mar, o papagaio-do-mar reconhece-se pela silhueta compacta e pelo voo rápido, rasante, com as asas a baterem a uma cadência frenética. Não tem a graça planadora do albatroz nem a desenvoltura do alcatraz: voa como se arriscasse cair a cada segundo — e, de certa forma, é o caso. As asas, adaptadas à propulsão subaquática, são demasiado curtas para um voo confortável. O compromisso é o de todos os alcídeos: excelentes nadadores, voadores laboriosos.
Pousado, a identificação é imediata. O ventre branco, o dorso negro, as patas cor de laranja vivo e sobretudo o bico tricolor não deixam margem para dúvidas em plumagem nupcial (abril-agosto). Em plumagem de inverno, a face escurece, o bico encolhe e perde as cores — a ave parece então mais próxima da torda-mergulheira, mas permanece mais atarracada e mais redonda.
Debaixo de água, o papagaio-do-mar «voa» literalmente: utiliza as asas como barbatanas, batendo-as com o mesmo movimento do voo aéreo, enquanto as patas palmadas cor de laranja servem de leme. A cena é espetacular para os mergulhadores que têm a sorte de lhe assistir — uma pequena ave negra e branca que se lança no azul-esverdeado com uma determinação de míssil.
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MODO DE VIDA
O papagaio-do-mar leva uma vida dupla. De setembro a março, é uma ave de alto mar, solitária e discreta, que flutua nas águas frias do Atlântico Norte, por vezes a centenas de quilómetros de qualquer costa. Depois, na primavera, regressa aos milhares às falésias onde nasceu — e a colónia explode de vida.
A nidificação faz-se em tocas, escavadas no solo mole no topo das falésias ou nas encostas relvadas dos ilhéus. O papagaio-do-mar é a única ave marinha da Europa a escavar a sua própria toca, que reutiliza frequentemente de ano para ano. O casal — monógamo e fiel ao mesmo parceiro durante anos — põe um único ovo, que ambos os progenitores chocam à vez durante seis semanas.
A proeza mais célebre do papagaio-do-mar é a sua pesca. Mergulha a partir da superfície, propulsionado pelas asas, e captura os peixes pequenos um a um — mas em vez de engolir cada presa, alinha-os em travessas no bico, mantidos por uma língua rugosa e um sistema de dentículos palatinos que funciona como um cabide. O recorde documentado é de 62 galeotas num único bico. Na prática, um regresso à toca com 10 a 20 peixes dispostos em leque é corrente — e é esta imagem, o papagaio-do-mar de pé à entrada da sua toca, com o bico transbordando de peixes prateados, que correu mundo.
ONDE OBSERVÁ-LO
O papagaio-do-mar nidifica exclusivamente no Atlântico Norte, das costas do Maine (Estados Unidos) à Bretanha, de Terra Nova à Escandinávia. A Islândia concentra, só ela, mais de metade da população mundial.
Islândia — Vestmannaeyjar e Látrabjarg. As ilhas Vestmann (Vestmannaeyjar), ao largo da costa sul, albergam a maior colónia de papagaios-do-mar do mundo — vários milhões de casais. A ilha principal, Heimaey, é acessível por ferry desde Landeyjahöfn. As aves nidificam de maio a meados de agosto, com um pico de atividade em junho-julho. No extremo noroeste, as falésias de Látrabjarg — as mais ocidentais da Europa — oferecem observações ao alcance do braço: os papagaios-do-mar nidificam ali mesmo na borda, sem receio do homem.
Noruega — Runde e Lofoten. A ilha de Runde, na costa oeste, é o maior local de nidificação da Noruega (cerca de 100 000 casais). Mais a norte, o arquipélago das Lofoten oferece um cenário espetacular — montanhas mergulhando no Ártico — com colónias acessíveis em Røst e Værøy. Época: maio a agosto.
Escócia — Lunga e Isle of May. A ilha de Lunga, no arquipélago das Treshnish (Hébridas Interiores), é o local mais fotografado do Reino Unido para os papagaios-do-mar. As aves são notavelmente pouco ariscas. A Isle of May, no Firth of Forth, é uma reserva nacional onde a colónia é acompanhada pelos ornitólogos há décadas. Época: abril a final de julho.
Terra Nova — Witless Bay. A reserva ecológica de Witless Bay, a 30 km a sul de St. John's, alberga a maior colónia de papagaios-do-mar da América do Norte — cerca de 260 000 casais nas ilhas Gull, Green e Great. A observação faz-se exclusivamente de barco (o desembarque é proibido). Época: maio a setembro, pico em junho-julho.
Bretanha — Sept-Îles. O arquipélago das Sept-Îles, ao largo de Perros-Guirec (Côtes-d'Armor), é o único local de nidificação do papagaio-do-mar em França. A colónia, acompanhada pela LPO desde 1912, conta atualmente com cerca de 150 a 200 casais — um número modesto mas em ligeira subida. A ilha Rouzic, que acolhe as aves, é interdita ao desembarque; a observação faz-se desde as lanchas que a circundam. É a colónia mais meridional da espécie na fachada atlântica europeia.
CALENDÁRIO DE OBSERVAÇÕES
| Destino | J | F | M | A | M | J | J | A | S | O | N | D |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Islândia (Vestmannaeyjar) | ||||||||||||
| Islândia (Látrabjarg) | ||||||||||||
| Noruega (Runde) | ||||||||||||
| Noruega (Lofoten) | ||||||||||||
| Escócia (Lunga) | ||||||||||||
| Escócia (Isle of May) | ||||||||||||
| Terra Nova (Witless Bay) | ||||||||||||
| Bretanha (Sept-Îles) |
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CONSERVAÇÃO
Fratercula arctica está classificado como Vulnerável (VU) na Lista Vermelha da UICN desde 2015. A população mundial, estimada entre 12 e 14 milhões de indivíduos, está em declínio acentuado — particularmente na Islândia, que concentra mais de metade. A espécie está protegida pela Diretiva Aves da União Europeia e inscrita no Anexo III da Convenção de Berna.
A ameaça principal são as alterações climáticas, e o seu mecanismo é indireto mas devastador. O aquecimento das águas de superfície do Atlântico Norte desloca para norte os cardumes de galeotas (Ammodytes), a presa de base do papagaio-do-mar durante a época de reprodução. Quando as galeotas se afastam, os adultos têm de voar mais longe e durante mais tempo para alimentar a sua cria única — e nos anos de escassez, a taxa de sobrevivência dos jovens desmorona-se. Na Islândia, algumas colónias conheceram épocas inteiras sem reprodução bem-sucedida.
As outras pressões são as capturas acessórias nas redes de pesca (sobretudo redes de emalhar), a poluição luminosa que desorienta os jovens aquando do seu primeiro voo noturno, a predação por espécies introduzidas (ratos, visões) em certas ilhas, e as marés negras. Na Islândia, a caça tradicional com rede (puffin catching) persiste mas diminui face ao declínio das populações.
O observador responsável permanece nos trilhos assinalados, não se aproxima das tocas (um pisoteamento pode afundar a galeria), e não utiliza drone — o ruído e a sombra dos drones provocam voos de pânico que separam os adultos das suas crias.
Organizações a apoiar:
- RSPB — Royal Society for the Protection of Birds — monitorização das colónias britânicas, gestão das reservas (Lunga, Isle of May)
- LPO — Ligue pour la protection des oiseaux — gestão da reserva das Sept-Îles, único local francês
- BirdLife International — coordenação mundial, classificação UICN
- Project Puffin (Audubon) — programa pioneiro de reintrodução no Maine (Estados Unidos)
3 COISAS QUE PROVAVELMENTE NÃO SABE
1. O bico é fluorescente. Em 2018, investigadores descobriram que o bico do papagaio-do-mar emite uma fluorescência sob luz ultravioleta — as cristas amarelas do bico brilham com um fulgor azul-branco que o olho humano não perceciona. As aves, essas, veem no ultravioleta. Este sinal oculto desempenha provavelmente um papel na parada nupcial e no reconhecimento entre parceiros, em condições de fraca luminosidade — no fundo da toca, ao amanhecer, ao crepúsculo. O papagaio-do-mar não se limita a ser colorido: brilha no escuro.
2. Escava com as patas, não com o bico. A toca do papagaio-do-mar mede em média 70 cm a 1,10 m de profundidade, por vezes até 2 metros em solo mole. Apesar do tamanho impressionante do bico, a ave não o utiliza para escavar: usa as patas com garras, movendo a terra para trás como um coelho. O bico serve para arrancar raízes e desimpedir pedras, mas o grosso do trabalho é feito com os pés. O fundo da toca é forrado com penas e ervas secas — um ninho cuidado, invisível do exterior.
3. As crias partem sozinhas, de noite, sem nunca terem visto o mar. A cria — chamada puffling em inglês — é alimentada na toca durante seis semanas, depois abandonada pelos progenitores. Após alguns dias de jejum, sai de noite, sozinha, e desce em direção ao mar que nunca viu. Na Islândia, nas aldeias das Vestmannaeyjar, as jovens aves desorientadas pelas luzes da vila aterram em agosto nas ruas, nos jardins e nos parques de estacionamento. As crianças da aldeia saem então com caixas de cartão para as recolher e libertá-las na costa ao amanhecer — uma tradição local que salva milhares de pufflings todos os anos.
DICAS DE FOTO E VÍDEO
O papagaio-do-mar é uma das aves marinhas mais fotogénicas do mundo. A sua tolerância ao homem em certos locais de nidificação permite imagens de uma intimidade rara — desde que se permaneça paciente e se respeite o animal.
Objetiva. Uma teleobjetiva 100-400 mm é a escolha polivalente. Nos locais onde as aves são pouco ariscas (Lunga, Látrabjarg), uma 70-200 mm basta, e pode-se mesmo trabalhar com uma 50 mm para retratos ambientais. Desde um barco (Witless Bay, Sept-Îles), prever 300 mm no mínimo e um estabilizador eficaz.
Luz. As horas douradas — início da manhã e final da tarde — produzem as melhores imagens, sobretudo na Islândia e na Escócia onde o sol rasante de junho-julho dura horas. A luz direta do meio-dia esmaga as cores do bico e cria sombras duras na face branca. Com céu encoberto (frequente no Atlântico Norte), a luz difusa torna a plumagem mais legível e as cores mais saturadas.
Aproximação. Nunca se aproximar em linha reta — sentar-se recuado em relação à toca e esperar. Os papagaios-do-mar regressam por si, frequentemente a poucos metros do observador imóvel. A imagem que faz a diferença é a do papagaio-do-mar com o bico carregado de peixes, de regresso da pesca: exige paciência (o regresso é imprevisível) e um tempo de reação curto (a ave pousa e entra na toca em poucos segundos).
Erro clássico. Fotografar unicamente o retrato cerrado. O papagaio-do-mar pousado numa falésia florida de silenes e de estrelinha-do-mar rosas, com o mar como pano de fundo, conta uma história bem mais forte do que um grande plano do bico. Pensar no contexto: a colónia, o voo, a aterragem desastrada de patas abertas, o casal a roçar o bico (billing) — é aí que vive a personalidade da ave.



