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Arraia

Dasyatidae — Dasyatis, Hypanus, Pastinachus, Himantura, Taeniura

Um disco de seda armado com um punhal: a arraia é o paradoxo do recife.

Arraia (Dasyatidae — Dasyatis, Hypanus, Pastinachus, Himantura, Taeniura)

FICHA DE IDENTIDADE

ClassificaçãoOrdem dos Myliobatiformes, família dos Dasyatidae e famílias próximas
Nome científicoDasyatis, Hypanus, Pastinachus, Himantura, Taeniura, Urogymnus
TamanhoDe 30 cm (Taeniura lymma) a mais de 2 m de envergadura (Hypanus americanus)
PesoDe 1 kg a mais de 100 kg, dependendo da espécie
Velocidade~8 km/h em deslocação, acelerações breves até 30 km/h
Longevidade15 a 25 anos (até 30 anos nas grandes espécies)
Profundidade0 a 60 m, mas a maioria das observações entre 1 e 25 m
DietaCarnívora bentônica — moluscos, crustáceos, vermes, pequenos peixes enterrados
Estatuto UICNVariável conforme a espécie — de Pouco preocupante (LC) a Em perigo crítico (CR) para várias espécies de água doce

RETRATO

Raramente se vê chegar. A arraia está pousada na areia, contorno difuso, cor do fundo, quase invisível. E então descola — um batimento das largas barbatanas peitorais, um movimento de uma fluidez absoluta — e o mergulhador percebe que nada com um dos animais mais elegantes do recife. Um disco plano, flexível, que ondula como um lençol ao vento, propulsado sem esforço aparente pela coluna de água.

Sob esta graça, uma arma. A cauda da arraia transporta um ou vários espinhos venenosos, dardos dentados de 5 a 35 cm recobertos por uma bainha de muco carregada de veneno. O animal nunca os usa para atacar: é um reflexo defensivo, desencadeado quando é pisado ou agarrado. O dardo parte-se na ferida, a bainha liberta um cocktail de proteínas que provoca uma dor fulminante. Centenas de banhistas pisam uma arraia enterrada na areia à beira-mar todos os anos — o acidente mais frequente com um elasmobrânquio no mundo.

A 4 de setembro de 2006, o naturalista australiano Steve Irwin morreu de uma espetadela de arraia-de-cauda-curta (Bathytoshia brevicaudata) em plena filmagem, ao largo de Port Douglas. O dardo atingiu o coração. Esta morte — extraordinariamente rara — deu a conhecer o animal ao mundo inteiro, mas também desencadeou uma vaga de represálias contra as raias na Austrália. A ironia é cruel: Irwin passara a vida a defender exatamente estes animais.

COMO RECONHECÊ-LA

O corpo da arraia é um disco dorso-ventral formado pela fusão das barbatanas peitorais com o tronco. A boca, as narinas e os cinco pares de fendas branquiais estão na face ventral. Os olhos e os espiráculos — dois orifícios que aspiram água para as brânquias quando o animal está pousado no fundo — estão na face dorsal.

A cauda é comprida, fina, desprovida de barbatana caudal. É ela que transporta o ou os espinhos, situados no terço proximal. Atenção para não confundir a arraia com a raia-águia (Aetobatus narinari), cujo focinho forma um rostro pontiagudo e que nada em plena água, nem com a raia-manta, bem maior e desprovida de espinho.

As espécies que o mergulhador encontra mais frequentemente:

  • Arraia-americana (Hypanus americanus) — disco castanho-acinzentado podendo atingir 1,5 m, omnipresente nas Caraíbas. É a espécie-estrela de Stingray City.
  • Arraia-de-pintas-azuis (Taeniura lymma) — pequena (30-40 cm), amarelo-esverdeada salpicada de pontos azul-elétrico. Mar Vermelho, oceano Índico, Pacífico ocidental.
  • Arraia-leopardo (Himantura leoparda) — disco ornado de rosetas escuras, Indo-Pacífico.
  • Arraia-de-manchas-negras (Taeniurops meyeni) — grande espécie cinzento-escura maculada de negro, frequente na Polinésia e nas Maldivas.
  • Arraia-comum (Dasyatis pastinaca) — Atlântico leste e Mediterrâneo, disco losângico castanho uniforme.

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MODO DE VIDA

A arraia é um animal de fundo. Passa grande parte do dia enterrada na areia, só com os olhos e os espiráculos a sobressair da superfície. Esta camuflagem é simultaneamente uma proteção contra predadores — tubarões, especialmente o tubarão-martelo, que é um especialista — e uma técnica de caça de espera.

Para encontrar as presas, elas próprias enterradas, a arraia dispõe de um sentido que o homem não possui: a eletrorecepção. Centenas de captores chamados ampolas de Lorenzini, dispostos sob a face ventral do disco, detetam os campos elétricos ínfimos gerados pelas contrações musculares de um crustáceo ou de um verme enterrado. A arraia «varre» o fundo deslizando sobre a areia e depois achata-se sobre a presa, esmagando-a com as suas placas dentárias — fileiras de dentes planos soldados num mosaico esmagador, concebidas não para cortar mas para esmagar conchas.

A reprodução é vivípara aplacentária na maioria das espécies: os embriões desenvolvem-se no útero da mãe, nutridos primeiro por um saco vitelino e depois por um leite uterino (histótrofo) secretado pela parede do útero. As ninhadas são modestas — de 1 a 13 crias, dependendo da espécie — e a gestação dura de 4 a 12 meses. Os recém-nascidos são réplicas em miniatura do adulto, espinho incluído, e são autônomos desde o nascimento.

ONDE OBSERVÁ-LA

As arraias frequentam todos os mares tropicais e temperados quentes do globo. Encontram-se do litoral arenoso aos recifes de coral, das lagoas pouco profundas aos tombantes. Eis os destinos onde a interação é mais memorável:

Grand Cayman — Stingray City. O local mais célebre do planeta para as arraias. Sobre um banco de areia a pouca profundidade na lagoa de North Sound, dezenas de arraias-americanas (Hypanus americanus) vêm ao encontro dos visitantes, habituadas desde os anos 1980 pelos pescadores que limpavam as suas capturas naquele local. A água é cristalina, a profundidade não ultrapassa 1,5 metro — acessível em snorkeling como em mergulho. A experiência é única, mas a alimentação levanta questões éticas legítimas sobre a alteração do comportamento natural.

MooreaPolinésia Francesa. Na lagoa norte de Moorea, as arraias-de-manchas-negras (Taeniurops meyeni) e as arraias-de-pintas-azuis partilham as águas pouco profundas com os tubarões-de-pontas-negras. As excursões a partir de Temae e da baía de Cook permitem nadar entre elas em snorkeling, num cenário de lagoa turquesa encostada aos picos vulcânicos.

Bora Bora — Polinésia Francesa. As mesmas espécies que Moorea, num cenário ainda mais espetacular. As excursões na lagoa passam por estações onde as arraias, habituadas à presença humana, aproximam-se por iniciativa própria. A água não ultrapassa 2 metros — um batismo ideal para não mergulhadores.

Mar VermelhoEgito. As arraias-de-pintas-azuis (Taeniura lymma) são omnipresentes nos recifes do litoral, de Sharm El Sheikh a Marsa Alam. Cruzam-se pousadas nos platôs, debaixo de mesas de coral, por vezes em grupos de cinco ou seis. Os locais de Ras Nasrani, Elphinstone e Shaab Marsa Alam oferecem observações regulares, frequentemente ao mesmo tempo que as moreias e os peixes-leão.

Maldivas. As arraias estão presentes em praticamente todos os locais de mergulho do arquipélago. Os house reefs das ilhas-hotel acolhem arraias-de-pintas-azuis e arraias-de-manchas-negras residentes. Os locais de limpeza, onde as arraias vêm ser desparasitadas pelos bodiões, proporcionam cenas notáveis.

Belize — Hol Chan e Shark Ray Alley. Na extremidade sul da reserva marinha de Hol Chan, Shark Ray Alley reúne arraias-americanas e tubarões-lixa num canal pouco profundo. Tal como em Stingray City, o local nasceu do hábito de alimentação pelos pescadores. A água é clara, a profundidade modesta e a densidade de animais impressionante.

CALENDÁRIO DE OBSERVAÇÕES

DestinoJFMAMJJASOND
Grand Cayman (Stingray City)
Moorea (Polinésia)
Bora Bora (Polinésia)
Mar Vermelho (Egito)
Maldivas
Belize (Shark Ray Alley)

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CONSERVAÇÃO

A situação das arraias varia consideravelmente de espécie para espécie. As espécies marinhas costeiras das Caraíbas e do Indo-Pacífico mantêm-se relativamente abundantes, mas várias espécies de água doce e estuarinas figuram entre os elasmobrânquios mais ameaçados do planeta. A raia gigante de água doce (Urogymnus polylepis), que pode ultrapassar 600 kg, está classificada como Em perigo (EN) pela UICN.

As ameaças são clássicas para um condricte: capturas dirigidas (carne, pele utilizada em marroquinaria de luxo sob o nome de lixa), capturas acessórias em redes de fundo e arrasto, destruição dos habitats costeiros (mangais, ervados) que servem de berçário. A fecundidade modesta — poucas crias por ninhada, maturidade sexual tardia — torna as populações vulneráveis à sobrepesca.

A alimentação turística, praticada tanto em Stingray City como em Shark Ray Alley, é controversa. Altera os ritmos alimentares, os comportamentos sociais e os territórios das arraias. Estudos realizados em Grand Cayman mostram que as arraias alimentadas por turistas apresentam um nível de cortisol mais elevado, atividade noturna reduzida e lesões por mordedura entre congêneres mais frequentes do que as populações selvagens. O compromisso entre retorno econômico para as comunidades locais e bem-estar animal permanece um tema em aberto.

O mergulhador responsável não toca na arraia, não a persegue e nunca caminha num fundo arenoso sem arrastar os pés (o «stingray shuffle»), para lhe dar tempo de fugir.

Organizações a apoiar:

  • Shark Trust — conservação de tubarões e arraias, campanhas contra a pesca insustentável
  • Save Our Seas Foundation — financiamento de projetos de investigação sobre elasmobrânquios
  • Manta Trust — programa Mobulid que inclui o seguimento de arraias bentônicas
  • PADI AWARE — programa de ciência cidadã, registo de observações

3 COISAS QUE PROVAVELMENTE NÃO SABE

1. O espinho volta a crescer — e pode ter vários. O espinho venenoso da arraia não é permanente: parte-se durante uma picada defensiva ou desgasta-se naturalmente, e um novo dardo cresce na base em poucas semanas a meses. Durante a transição, o antigo e o novo coexistem — observam-se regularmente arraias com dois ou mesmo três espinhos sobrepostos na cauda. O veneno não está no dardo em si, mas na bainha de tecido que o envolve: é por isso que um dardo partido, mesmo desligado do animal, continua perigoso.

2. «Vê» com a barriga. As ampolas de Lorenzini, esses captores elétricos repartidos sob a face ventral do disco, são tão sensíveis que detetam um campo de cinco milésimos de milionésimo de volt por centímetro — o equivalente a uma pilha de 1,5 volt cujos terminais estivessem separados por 3 000 quilômetros. Esta eletrorecepção permite-lhe localizar um verme enterrado sob 15 cm de areia, na escuridão total, sem o tocar nem o ver. É um sexto sentido no sentido estrito: um canal sensorial que os mamíferos não possuem.

3. Stingray City nasceu de um acidente. Nos anos 1980, os pescadores de Grand Cayman tinham o hábito de limpar as capturas sobre um banco de areia abrigado na lagoa de North Sound. As arraias aprenderam a associar o ruído dos motores à comida e começaram a juntar-se em número. Quando os mergulhadores seguiram, o local tornou-se uma das atrações submarinas mais visitadas do mundo — mais de um milhão de visitantes por ano. Hoje, as arraias de Stingray City reconhecem o som dos barcos, aproximam-se por iniciativa própria e deixam-se tocar, um comportamento que não existe em mais nenhum local nesta espécie normalmente medrosa.

DICAS DE FOTO E VÍDEO

A arraia é um sujeito gratificante: é lenta, frequentemente imóvel, e a sua forma achatada presta-se magnificamente ao enquadramento. Mas está também muito perto do fundo, o que coloca desafios específicos.

Objetiva. Grande angular de preferência. Em caixa estanque: 10-17 mm fisheye ou 16-35 mm para retratos de frente. Em GoPro ou compacta: o campo nativo serve. Para espécies pequenas como Taeniura lymma, uma objetiva macro ou um modo macro permite captar os detalhes das pintas azuis e da textura da pele.

Luz. As arraias pousadas no fundo estão frequentemente numa luz plana. Um flash ou uma lanterna de vídeo é quase indispensável para restituir as cores e destacar o animal da areia — sem iluminação, a arraia confunde-se com o substrato, e a foto é tão apagada quanto a camuflagem é eficaz. Orientar o flash lateralmente para evitar a retrodifusão das partículas em suspensão.

Aproximação. Colocar-se rente ao fundo, ao mesmo nível da arraia, é a chave. Um ângulo picado de cima produz uma imagem em que o animal parece um crepe cinzento sobre areia cinzenta. Colocando-se ao nível dele, o disco ganha relevo, a cauda desenha uma linha de fuga e o fundo ganha profundidade. Aproximar-se lentamente, sem gestos bruscos — uma arraia pousada tolera frequentemente uma proximidade de 50 cm se se chegar sem agitação.

Erro clássico. Fotografar por cima. A face dorsal da arraia é a sua camuflagem — é propositadamente apagada. A imagem mais espetacular é o retrato de frente, de baixo ou em voo: o animal visto de baixo revela a face ventral branca, a boca e a silhueta em asa delta que faz toda a sua elegância.

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