Tartaruga-de-pente
Eretmochelys imbricata
A mais bela carapaça do oceano é também a mais ameaçada.

FICHA DE IDENTIDADE
| Classificação | Ordem dos Testudines, família dos Cheloniidae |
| Nome científico | Eretmochelys imbricata (Linnaeus, 1766) |
| Tamanho | 60 a 90 cm de carapaça (raramente além de um metro) |
| Peso | 45 a 75 kg (máximo registado: ~127 kg) |
| Velocidade | Até 24 km/h em ponta; cruzeiro lento sobre o recife |
| Longevidade | 30 a 50 anos (estimativas até 60 anos em meio protegido) |
| Profundidade | Superfície a 70 m, mas geralmente entre 1 e 25 m no recife |
| Dieta | Principalmente espongívora — esponjas, anémonas, medusas, algas, pequenos invertebrados |
| Estatuto UICN | Em perigo crítico (CR) — população em declínio de mais de 80 % em três gerações |
RETRATO
Reconhece-se de longe, bem antes de se distinguirem as escamas: uma silhueta estreita, um voo planado sobre o recife, a cabeça inclinada para uma esponja que mais ninguém comeria. A tartaruga-de-pente é a aristocrata dos recifes de coral. Mais pequena do que a tartaruga-verde, mais fina do que a tartaruga-cabeçuda, compensa com uma elegância que quase lhe custou a vida.
Eretmochelys imbricata deve o seu nome às escamas da carapaça, que se sobrepõem como as telhas de um telhado — em latim, imbricata significa literalmente «coberta de telhas». São estas escamas, de um âmbar translúcido rajado de negro e castanho, que o comércio da tartaruga-de-pente explorou durante séculos para fabricar pentes, óculos, joias e objetos de arte. Só o Japão importou mais de dois milhões de carapaças entre 1950 e 1992, antes de a CITES proibir o comércio internacional.
O mergulhador que cruza uma tartaruga-de-pente encontra-a quase sempre a comer. A cabeça enfiada numa fenda do recife, arranca as esponjas à bicada, indiferente ao resto do mundo. É um dos raros vertebrados capazes de se alimentar de esponjas — organismos cuja carne é eriçada de espículas de sílica e frequentemente tóxica. Ao consumi-las, mantém o equilíbrio do recife: sem esta pastagem, as esponjas invadiriam o coral e sufocá-lo-iam.
COMO RECONHECÊ-LO
A tartaruga-de-pente distingue-se das outras tartarugas marinhas por vários traços nítidos. O bico é estreito, pontiagudo, curvado para baixo — lembra o de uma ave de rapina, e é a ele que deve a alcunha inglesa de hawksbill. A carapaça apresenta cinco escudos vertebrais e quatro pares de escudos costais, cujos bordos posteriores se sobrepõem nitidamente nos juvenis; esta sobreposição atenua-se com a idade sem desaparecer totalmente.
A coloração é variável mas sempre bela: fundo ambarino, chamas castanhas e negras, por vezes reflexos alaranjados ou avermelhados. O plastrão é amarelo-pálido. Cada barbatana anterior apresenta duas garras visíveis — contra uma só na tartaruga-verde.
Debaixo de água, a confusão mais frequente é com a tartaruga-verde. Dois critérios decidem imediatamente: a forma da cabeça (focinho pontiagudo e bico curvo na tartaruga-de-pente, perfil arredondado na verde) e o tamanho (a tartaruga-de-pente raramente ultrapassa 90 cm, a verde atinge 120 cm). Se o animal estiver a pastar esponjas no recife, é uma tartaruga-de-pente — a verde é herbívora e pasta nos ervados.
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MODO DE VIDA
A tartaruga-de-pente habita os recifes de coral tropicais e subtropicais. Encontra-se também nos tombantes, nas lagoas, em torno de ilhéus rochosos e por vezes nos mangais — mas é no recife que passa o essencial do tempo. Ocupa um domínio vital surpreendentemente restrito para um animal marinho: algumas populações frequentam as mesmas formações coralinas durante anos.
A sua alimentação é dominada pelas esponjas, que podem representar 70 a 95 % da dieta nas Caraíbas. Seleciona as espécies: nos recifes das Ilhas Virgens, três espécies de esponjas constituem o essencial do regime, quando existem dezenas. Consome também tunicados, anémonas, medusas e ocasionalmente algas.
A reprodução segue o esquema clássico das tartarugas marinhas. A fêmea regressa para desovar na praia onde nasceu — um fenómeno chamado filopatria — e deposita em média 130 a 160 ovos por ninho, a um ritmo de três a cinco ninhos por estação. A incubação dura cerca de 60 dias. O sexo das crias depende da temperatura da areia: acima de 29,5 °C, a ninhada será maioritariamente feminina. Com o aquecimento global, este viés acentua-se e ameaça a diversidade genética das populações.
ONDE OBSERVÁ-LO
A tartaruga-de-pente frequenta as águas tropicais dos três oceanos, em todo o lado onde haja recife de coral. Eis os destinos onde os encontros são mais regulares:
Maldivas. Os atóis maldivos são um dos melhores locais do mundo para observar a tartaruga-de-pente no dia a dia. É residente na maioria dos recifes do arquipélago — House Reefs de North Malé, de South Ari, de Baa e de Raa. Os thilas (pináculos submarinos) e as passagens entre atóis concentram as observações. Nas Maldivas, é mais surpreendente NÃO cruzar uma do que encontrá-la.
Sipadan (Bornéu, Malásia). A ilha de Sipadan, ao largo da costa leste de Sabah, é um santuário lendário para as tartarugas marinhas. As tartarugas-de-pente e as tartarugas-verdes partilham os tombantes. Os mergulhadores cruzam regularmente cinco a dez por imersão, e a ilha continua a ser um dos locais de postura mais importantes da região. Barracuda Point, South Point e Turtle Cavern fazem jus ao nome.
Mar Vermelho. O recife de coral do mar Vermelho, entre os mais preservados do mundo, alberga uma população residente de tartarugas-de-pente. Observam-se regularmente em Ras Mohamed, no estreito de Tirã, em torno das ilhas Brothers e em Marsa Alam. Frequentam os tombantes e os jardins de coral pouco profundos, onde os mergulhadores as cruzam frequentemente na paragem de segurança.
Seicheles. O arquipélago das Seicheles é um dos últimos grandes locais de postura da espécie no oceano Índico ocidental. Os ilhéus de Aldabra e de Cousin albergam populações protegidas. Debaixo de água, os granitos submersos de Mahé, Praslin e La Digue oferecem um cenário onde a tartaruga-de-pente se funde entre as gorgónias e as esponjas.
Caraíbas — Bonaire e Curaçau. Os recifes franjantes de Bonaire, protegidos desde 1979 pelo Bonaire National Marine Park, albergam uma das populações de tartarugas-de-pente mais acessíveis do mundo. Observam-se em praticamente cada mergulho do litoral oeste. Em Curaçau, as baías de Playa Lagun e de Tugboat são pontos de encontro regulares. As Caraíbas no sentido lato — Belize, Ilhas Virgens, Saba, Tobago — continuam a ser um bastião importante da espécie.
CALENDÁRIO DE OBSERVAÇÕES
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CONSERVAÇÃO
Eretmochelys imbricata está classificada como Em perigo crítico (CR) na Lista Vermelha da UICN — o último patamar antes da extinção em estado selvagem. A população mundial caiu mais de 80 % em três gerações (cerca de 105 anos). A espécie está inscrita no Anexo I da CITES desde 1977 — o mais alto nível de proteção, que proíbe todo o comércio internacional.
O comércio de escamas é a causa histórica do declínio. Durante séculos, a carapaça da tartaruga-de-pente foi transformada em joias, ornamentos, armações de óculos e pentes em toda a Ásia e Europa. Apesar da proibição internacional, subsiste um mercado negro em certos países do Sudeste Asiático e da América Central. As outras ameaças são a captura furtiva de ovos nas praias de postura, a destruição dos recifes de coral (o seu habitat de alimentação), as capturas acessórias nas redes de pesca, a poluição por plástico — as medusas artificiais são engolidas por engano — e o aquecimento global, que feminiza as ninhadas e degrada os recifes.
Existem sinais de esperança. Os programas de proteção das praias de postura em Cousin (Seicheles), em Tortuguero (Costa Rica) e em Bonaire mostram resultados: onde os ninhos são vigiados, as taxas de eclosão atingem 70 a 80 %. A moratória japonesa de 1993 sobre a importação de escamas cortou o maior mercado mundial. Mas a recuperação da população levará décadas — uma tartaruga-de-pente leva 20 a 35 anos a atingir a maturidade sexual.
O mergulhador responsável nunca toca numa tartaruga, não a persegue e não lhe barra o caminho. Quando se alimenta no recife, é acessível e tolerante — é justamente a razão para não abusar.
Organizações a apoiar:
- Sea Turtle Conservancy — a mais antiga organização de proteção das tartarugas marinhas (fundada em 1959)
- Turtle Foundation — proteção das praias de postura na Indonésia e em Cabo Verde
- SEE Turtles — turismo responsável e programas de conservação
- PADI AWARE — programa de ciência cidadã, registo de observações
3 COISAS QUE PROVAVELMENTE NÃO SABE
1. Come veneno ao pequeno-almoço. Algumas das esponjas que a tartaruga-de-pente consome diariamente são altamente tóxicas para a quase totalidade dos outros vertebrados. Várias contêm sílica sob a forma de espículas cortantes como vidro, e outras produzem compostos químicos que servem de defesa contra predadores. O sistema digestivo da tartaruga-de-pente neutraliza estas toxinas sem dano aparente — um mecanismo que a ciência ainda não compreende completamente. Consequência para o consumidor humano: a carne da tartaruga-de-pente pode provocar uma intoxicação grave (quelonitoxismo), por vezes mortal.
2. A sua carapaça é um recife em miniatura. As escamas imbricadas da tartaruga transportam permanentemente um ecossistema em miniatura: algas epífitas, cracas, briozoários, pequenos crustáceos. Um estudo realizado nas Maldivas identificou mais de 100 espécies de organismos a viver na carapaça de um único indivíduo. Ao deslocar-se de recife em recife, a tartaruga transporta este micro-ecossistema e contribui para a dispersão de espécies — um papel ecológico que só agora se começa a medir.
3. Reencontra a sua praia ao grau exato. Uma fêmea de tartaruga-de-pente regressa para desovar na praia exata onde nasceu, por vezes após 20 anos de ausência e milhares de quilómetros de migração. A precisão desta navegação assenta no campo magnético terrestre: cada praia possui uma assinatura magnética única que a tartaruga memorizou à nascença. Experiências de deslocação mostraram que uma fêmea deslocada 100 km reencontra a sua praia de origem em poucos dias.
DICAS DE FOTO E VÍDEO
A tartaruga-de-pente é um dos sujeitos subaquáticos mais fotogénicos. A sua tolerância para com os mergulhadores — sobretudo quando se alimenta — autoriza aproximações que poucos animais marinhos permitem. Ainda assim, convém não desperdiçar a ocasião.
Objetiva. Grande angular em prioridade: 10-17 mm fisheye ou 14-24 mm retilínea para os planos de conjunto com o recife em segundo plano. Uma objetiva macro (60 ou 100 mm) é útil para os grandes planos da cabeça e do bico — o detalhe das escamas e o olho ambarino são imagens fortes.
Luz. A tartaruga-de-pente evolui frequentemente entre 5 e 15 metros, numa luz natural abundante. Um flash ou focos de baixa potência realçam as cores da carapaça, sobretudo quando o animal está debaixo de uma saliência. Evitar o flash frontal direto, que achata os relevos da carapaça e afugenta o animal.
Aproximação. A regra de ouro: chegar pelo lado, nunca por cima. Colocar-se ao mesmo nível da tartaruga, a 2-3 metros, e esperar. Se estiver a comer, ignorará o mergulhador durante longos minutos — tempo suficiente para compor a imagem. Nunca a seguir quando descola do recife: ela acelera, o mergulhador fica sem fôlego, a imagem fica desfocada e o animal fica stressado.
Erro clássico. Fotografar o dorso. Uma tartaruga vista de cima é um oval castanho sem interesse. As melhores imagens são frontais (a cabeça, o bico, o olho) ou laterais (a silhueta sobre o azul, a carapaça iluminada em contraluz). Procurar o olhar — o olho da tartaruga-de-pente, escuro e pensativo, é o elemento que dá alma à fotografia.



